quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Lições Zen em Kunming

Kunming é a capital da província do Yunnan e uma cidade de que conheço muito pouco, mas aposto convosco que conheço um local que pouquíssimos turistas conhecerão: o Provincial Red Cross Hospital.

A única fotografia que tenho da cidade
Pois é, na minha passagem por Kunming, que deveria ter sido de dois dias e foi de uma semana, o indesejável aconteceu: fiquei doente ao ponto de ter de visitar um dos hospitais da zona. Andava a embalar uma constipação há uns dias e depois da viagem a Jiuzhaigou, que vos contei no post anterior, a coisa escalou para um febrão, tonturas e uma fantástica cambada de dores.

Grande azar, dirão vocês, mas eu digo que até foi sorte, porque se tivesse adoecido uns dias depois, noutra cidade mais pequena, teria sido pior. 

No Hostel não pareceram particularmente condoídos: era o dia do meu check-out e regras são regras.

- Mas... - ainda balbuciei.

Nem mas nem meio mas. Já havia uma reserva para a minha cama e eu tinha de sair.

Sentia-me tão mal que por momentos pensei largar num pranto. Depois voltei para a cama e aí contemplei a hipótese de me deixar ficar até chamarem a polícia. Acabei por me levantar duas horas depois, mesmo a tempo de às três pancadas enfiar tudo na mochila, mas não sei como me arranjei que sobravam coisas. E a hora do check-out, que estava iminente...

Estava nisto quando bateram à porta. Afinal a outra reserva tinha sido cancelada e eu podia ficar. Entre esganar o mensageiro, saltar de alegria e voltar simplesmente para a cama, acabei por decidir deixar tudo ali e ir para o hospital.

Por esta altura, os sintomas estavam a baralhar-me com a sua intensidade e eu já temia ter sido picada durante o sono por algum bicharoco peçonhento que me tivesse passado qualquer coisa verdadeiramente desagradável.

Na recepção, mais uma vez, um gelo ártico. Lamentavam muito mas não, não me podiam levar a um hospital, nem tão pouco à porta do táxi, porque o pessoal que estava tinha de ficar ao serviço. Já nem discuti. Com a ajuda de outros dois turistas que por ali andavam, lá se conseguiu identificar, pelo menos, a que hospital eu devia ir, onde houvesse a remota hipótese de falarem inglês.

De nome e morada na mão, em chinês claro está, meti-me no taxi e fui. No hospital, universitário por sinal, inglês pouco falavam, mas a omissão foi compensada pela qualidade das instalações e dos cuidados. Da minha passagem por ali posso apenas dizer o melhor. Acompanharam-me do início a fim, sempre com a maior das atenções, traduziram tudo o que foi necessário nos seus super-telemóveis e até lançaram um condoído e genuíno "óóó" quando o termómetro assinalou 39,8 graus centígrados - solidariedade que uma pessoa sempre aprecia nestas situações.

Pois bem, feitas as necessárias consultas e análises, sempre com os super-telemóveis por perto, ficou decidido: era uma infecção respiratória e eu tinha era de ir para casa descansar, fazer medicação e voltar ao fim de três dias se ainda não tivesse melhorado.

Os dias seguintes passei-os numa espécie de torpor estuporado, entre o quarto e a sala de refeições do Hostel. À satisfação de me ter desenvencilhado sozinha veio juntar-se a sensação aguda de uma profunda vulnerabilidade - a que todo o ser humano partilha, suponho - e também, pela primeira vez desde a partida, a realização muito concreta da minha condição de viajante sem co-piloto.

A doença, sobretudo vivida assim, num lugar estranho e sem mimo, construiu ao meu redor um casulo que me removeu da vida que corria à volta, puxando-me para uma torrente confusa de emoções e pensamentos sobre os porquês - coisa em que uma pessoa nem saudável se deve pôr a pensar.

A minha querida mochila, ainda que silenciosamente solidária, pouco mais podia fazer que esperar a passagem deste rebuliço interior. Certo e sabido, ele passou. Não foi logo, assim como não foi logo que o meu corpo voltou aos cem por cento do seu vigor. Mas um dia, como sempre acontece, a vida e o sol voltaram a entrar dentro de mim com o mesmo brilho e eu declarei-me curada.

A doença custou-me muito tempo e energia e obrigou-me a alterar vários dos planos que tinha para as duas últimas semanas de China continental. Tive de abandonar os meus propósitos de percorrer a Garganta do Tigre que Salta, bem como de visitar a província de Guangxi, qual dos dois a maior facada no meu coração viajante.

Mas aos poucos resignei-me. Aceitei. Tornei-me mais grata pelo que estava, ainda assim, ao meu alcance e apercebi-me da importância do alerta que estava a ter sobre o excesso de planos e a impossibilidade de eliminar o imprevisto. Recordo, em particular, o que me disse um outro viajante que estava no mesmo Hostel e junto do qual eu carpia as minhas mágoas pelo que tinha deixado de fazer:

- Pois eu nunca faço planos, por isso nunca me decepciono.

A perfeita lição Zen.

2 comentários:

  1. Concordo com o "outro viajante"... acho que já tínhamos falado sobre isto ;) Bjs

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    1. Olá! Que bom receber a tua visita! É verdade, mas há certas lições que temos de aprender mais de uma vez, para verdadeiramente interiorizar. :) Bjs

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