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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma pausa inesperada em Chiang Khong

Numa pousada à beira do Mekong gela-se o corpo enquanto a chuva pontapeia o telhado. Estou sentada num promontório de madeira aberto a toda a volta, com cerca de uma dezena de mesas, algumas das quais ocupadas por outros hóspedes igualmente irregelados. O casal de portugueses que conheci esta tarde debandou em busca de refúgio no conforto do quarto. E eu, debaixo do meu insubstituível polar, janto sopa de glass noodles e tofu, como parece exigir este Inverno súbito e bizarro.

Há uma inércia no ar, uma preguiça de músculos relutantes em sair debaixo da roupa ou das cobertas que se arrastaram do quarto, e mesmo as conversas resistem ao seu normal fluir, empedernidas pelo frio. Nisto, alguém decide começar uma fogueira e a disposição muda. Cadeiras alinham-se em torno das chamas, interpelações cruzam-se, vozes crepitam de um lado e outro do círculo, plenas de histórias e partilha. Amizades de circunstância, tão instantâneas e transitórias como a nossa presença neste lugar.

Cheguei a Chiang Khong no autocarro das duas, com a mochila sobre as costas e um céu negro sobre a cabeça. Nuvens cinzentas que em breve se desfizeram nesta chuva que enche o escuro de ruído.

Estamos no começo do limbo, a última porta da Tailândia por onde passam os viajantes rumando em direcção ao norte do Laos. O trilho é conhecido e bem marcado. Chegada a Chiang Khong no autocarro da tarde, dormida numa pousada local e partida para a fronteira na manhã seguinte, com o fito último de apanhar o slow boat de dois dias para Luang Prabang.

Os meus planos imediatos são outros, porém. Venho decidida a ficar um dia mais, poisar malas, lavar roupa, enviar correio, organizar fotografias e reactivar o blogue, coisas pequenas e grandes de que se enchem os interlúdios desta vida feita a vogar de um ponto ao outro do mapa. Mas por agora, termino simplesmente a minha sopa e fico à conversa junto ao fogo, até o escuro, o frio e o prosaico cansaço me empurrarem para a cama.

Na primeira manhã, pelas seis, o raiar da aurora encontra-me desperta e atenta, aninhada na varanda do meu bungalow com uma manta até ao nariz e os olhos postos no horizonte laranja e nas águas terrosas do rio. Um hora mais tarde transito para o espaço comum no andar de cima, onde o dia começa a sacudir o sono com um pequeno almoço de torradas, ovos, chá e fruta.

Depois disso, trato dos deveres sem pressa nem hora, parando aqui e ali sempre que uma conversa desponta. Descubro a lavandaria local, com os mesmos preços indindescritivelmente baratos de sempre, passo pelo 7-Eleven, a ubíqua cadeia de lojas de conveniência nascida nos Estados Unidos e dominante por estas paragens, encontro os correios e a rua principal, paro, no meio disto, num carrinho de rua onde se vende chá tailandês com leite. Desfio, enfim, o meu novelo de deveres e prazeres, ao ritmo e à medida da minha vontade.

Com o correr das horas vou-me acomodando ao espaço e ao tempo deste lugar, uma cidade onde nada reclama esforço ou atenção, nada exige ser feito, nada exige ser visto, onde sem culpa recalcada uma pessoa pode dedicar as suas horas a contar nuvens e deixar correr o rio.

O meu dia de repouso vai-se convertendo em vários. Cada noite, o espaço enche-se e a pousada ganha vida; cada manhã, uma carrinha passa a levar o grupo de viajantes para a fronteira e o silêncio retoma o seu lugar. Ou quase. Um diminuto grupo de habituais vai-se mantendo de dia para dia, acrescido, de quando em quando, por uma cara nova. Habituais como o A., que aos oitenta e três anos leva sessenta e oito de viagem atrás de si, ou o J., que com vinte se encontra nos primeiros dias da sua viagem a solo de vários meses.

O casal que gere o espaço aparece a intervalos regulares, amigavel, prestável, acolhedor, decidido a transformar uma pousada como tantas outras num lar, mesmo que temporário. Talvez seja isso que ressoa em nós, os que ficamos a cada manhã, adiando por umas horas mais a nossa própria vez de embarcar.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Amor à segunda vista em Chiang Mai - parte II

Espanta-me que não tenha incendiado a casa. Espanta-me que me tenha atrevido a brincar com o fogo e não tenha queimado couro e cabelo no dia em que pegaram em mim e me levaram para uma quinta nos arredores de Chiang Mai, para me ensinarem os segredos da culinária tailandesa.

Mas assim quis a sorte que eu me surpreendesse a mim mesma com as minhas (até aí perfeitamente ocultas) habilidades culinárias. Posso agora, com todo o orgulho devido à ocasião, afirmar que caril, manga com sticky rice, pad thai e outras receitas populares deixaram de ter mistério para mim.

Ou quase. A verdade é que a nossa experiente e risonha professora nunca andava muito longe de cada fogão, pronta a acorrer a fogos e emergências várias, caso se suscitassem. E apesar de aprendermos a cozinhar os pratos desde o zero, a verdade é também que alguma alma caridosa tivera já o incómodo de descascar, lavar e cortar a maior parte dos ingredientes necessários às nossas brilhantes criações.

Assim sendo, reunidos em turma numa sala ampla e com balcões a toda a volta, não foi difícil seguir as instruções que nos iam sendo dadas, em formato acessível tanto ao perito gastronómico como ao trapalhão a fritar ovos.

Mas adianto-me, porque o dia não começou aí, na quinta. Começou, como tudo na vida, no princípio. E o princípio de todos os cozinhados é o mercado, onde fomos aprender a fazer leite de côco, escolher vegetais e verduras vários e distinguir diferentes tipos de arroz (o sticky rice com bago claramente mais branco, arrendodado e polido que os demais).

A isso seguiu-se uma ronda nas hortas mantidas pela escola de culinária que organizava o evento, com uma interessantíssima introdução ao mundo dos legumes e ervas de cheiro tailandesas. Cheirando, provando, mexendo e anotando mentalmente todo um novo mundo de estímulos sensoriais, fomos abrindo caminho até à zona da cozinha.

E só então, devidamente introduzidos ao tema, partimos para a prática. Porque tudo o que se cozinha é para ser comido, o dia foi passado num banquete interminável, com prato após prato a sair directamente das nossas mãos para os nossos estômagos estonteados com a alarve abundância.

No fim de tudo, com um saquinho de pad thai guardado para a ceia, rebolei para dentro da carrinha que nos levaria de volta à cidade. Por azar, verdadeiro azar dos Távoras, tinha tido a falta de tino de combinar um jantar para esse mesmo dia, de modo que o caminho de regresso a Chiang Mai foi passado a instar o meu corpo à digestão urgente. Perante tais apelos, o meu corpo, com o bom senso natural que lhe assiste, fez-se de mouco.

Não, os bagos de arroz não são criados iguais
Aprendendo a fazer pasta de caril vermelha
Inesperadamente, uma deliciosa sopa Tom Yum
sai da minha panela
Ao jantar, abrindo o saquinho de pad thai que
não consegui comer durante o
grande banquete

Amor à segunda vista em Chiang Mai - parte I

Não era uma casa portuguesa, com certeza. Era uma caixa de fósforos a que chamavam quarto, tão diminuta que um duende se sentiria apertado, e com paredes de madeira que deixavam passar a luz e o ruído por mil e uma frinchas, já para nada dizer da ampla janela voltada para a escadaria principal. Trocar de roupa sem exposição total só era possível de luz apagada e em posição estratégica num dos cantos do quarto. Dormir de um sono só, nem pensar.

O que pagava por noite não permitia grandes queixas, é certo. Em todo o caso, qualquer destas deficiências empalidecia perante uma outra, a real e indesculpável falha, que era o nível deplorável do serviço naquele que poderia muito bem merecer o título do hostel mais antipático do mundo.

Mas as coisas são mesmo assim: vivendo e aprendendo. E eu, depois de três noites de resistência orgulhosa e nervos à flor da pele, aprendi a valiosa lição de que se tudo cheira a reduto backpacker hiperturístico movido em exclusivo pela vontade de fazer dinheiro, é porque muito provavelmente é. Por fim, as circunstâncias fizeram com que saltasse para a pensão do lado. E ainda que o meu bolso tenha ficado um pouco mais leve durante essa segunda estadia, foi grandemente poupada a minha saúde mental.

É a partir do meu poiso neste paraíso reencontrado que posso finalmente descontrair e entregar-me à minha história de amor com Chiang Mai. Não vou dizer que não é uma cidade turística, porque em grande medida é exactamente isso que Chiang Mai é. Mas enquanto que as ruas de Banguecoque, mais a sul, levaram o seu casamento com a indústria turística até ao amargo final, as de Chiang Mai, por se turno, parecem ter congelado o romance num eterno estado de namoro prazenteiro, repleto de sorrisos e pequenas surpresas.

A entrada em Chiang Mai faz-se geralmente de comboio, com a manhã ainda no seu começo. Ao contrário dos homónimos chineses em que andei, este sleeper train tailandês não tinha vagões com camas montadas em permanência. Uma pessoa entra e senta-se em bancos normais, que algures a meio do caminho um elemento da tripulação vem transformar em camas com uma habilidade e rapidez invejáveis. Quem fica no andar de baixo tem mais espaço de manobra, quem poupa uns euros e escolhe o de cima ou é pequeno ou encolhe-se um pouco mais. E perde o privilégio de uma janela, o que significa que sem sair do conforto da cama perde também o raiar da aurora. Mas seja qual for o cubículo escolhido, é toda uma experiência em si mesma imperdível, esta viagem nocturna, mesmo tendo em conta os níveis incompreensivelmente árticos do ar condicionado no comboio em que viajei.

Ainda antes de desembarcar já tinha atado os laços de uma nova amizade com o M., um rapaz belga que por acaso se veio sentar ao meu lado no comboio, quando amanheceu, de café na mão e olhos ensonados. Passei com ele os primeiros dias em Chiang Mai e os dias seguintes com o R. e a A., os meus amigos que de Banguecoque também aqui vieram parar.

Uma vez na cidade, rapidamente me instalo na miríade de rituais diários que tanto aprecio. O mesmo é dizer, descrubo os meus recantos nos cantos da cidade. O templo mais bonito, com os seus tijolos e Budas cobertos de luz alaranjada assim que a noite cai. A esquina onde a cidade ruidosa se esbate para dar lugar a ruelas cobertas de árvores silenciosas. O café onde servem o melhor masala chai, bebido com indolência, com costas reclinadas sobre almofadas espalhadas pelo chão. O sítio de brunch com produtos biológicos e manteiga verdadeira. A loja de livros usados que não guarda os seus livros em plástico, permitindo assim folheá-los. O mercado onde se vendem jaca, mangostão e outras delícias de comer à mão cheia. A escola de massagem onde, em menos de nada e a preços de amigo, mãos experientes roubam quilos de peso a pés e pernas massacrados por dias na estrada.

É também aqui que tenho a minha primeira, e a até à data única, experiência de Monk Chat, um programa existente em vários templos que cria espaços de conversa entre visitantes e monges, permitindo aos primeiros aprenderem mais sobre o Budismo e a vida monástica e aos segundos melhorarem o seu inglês.

Se problema existe nesta simpática cidade - certo e sabido, nenhum namoro é perfeito - é que uma vez deixado o interior das muralhas que delimitam a cidade velha, o ar pertence aos motores, ao fumo, ao barulho. Mas há suficiente Chiang Mai para encontrar refúgio. Há suficiente Chiang Mai para fazer algo diferente, ou para não fazer nada, porque chove ou porque simplesmente apetece a inércia. Que delícia, num dia cinzento, bebericar um chai fumegante e conversar como quem joga pingue-pongue com o R. e a A., ou tão-simplesmente deixar passar a chuva enquanto se folheiam livros tirados aleatoriamente de uma estante. Não, não foi à toa que Chiang Mai conseguiu reunir uma comunidade apreciável de expats residentes e um coro de vozes que louva regularmente os seus méritos nos fóruns da Internet.

Passo dias a pensar passar mais dias. Tenho um pé que não quer cruzar a soleira da porta e outro que me diz que é demasiado cedo para assentar arraiais. No fim, a lógica da viagem impõe-se e o namoro termina, com um último adeus e inúmeras promessas de regresso. Não sei se estas promessas algum dia serão cumpridas, mas aquece-me o coração pensar que sim.

Esplendor dourado num dos muitos Wat
(templos) da cidade
"O" brunch e "a" manteiga
Wat Chedi Luang fora de horas
O magostão revela os seus segredos
 Num recanto escondido, o momento inesperado
Desporto e diversão: a linguagem universal
Vida de bairro

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Aventuras em Khao Yai - parte II

Acordo com o primeiro pestanejar do sol. Saciada de sono, sou expelida da soleira da porta para a rua pela mesma força bruta que exorta cada bicho à vida. Rápido, rápido!, grita o novo dia, obstinando-se em começar. Toda eu me espreguiço. O brilho dourado da manhã cobre o mundo e enche de possibilidade e promessa o coração dos Homens. Para mim, a berma de estrada duvidosa de ontem amanhece pitoresca, genuína, refrescantemente remota.

Aproximo-me do restaurante semi-deserto. Após algumas buscas, consigo quem me sirva um pequeno-almoço de torradas, frutas e chá. Começo a refeição sozinha, no silêncio absoluto, mas pouco a pouco os bancos de madeira vão recebendo novos ocupantes e dentro de nada a vida canta a plenos pulmões.

Depois do pequeno-almoço, o nosso guia faz-se anunciar, reúne as tropas e começa a distribuir as primeiras instruções e as capas anti-sanguessuga. É hoje, por fim, o dia planeado ainda em Lisboa. Daqui partiremos à desfilada, na parte de trás de uma carrinha, com o vento a limpar-nos os restos de sono da cara e a rota apontada  ao nosso destino final: Khao Yai.

Situado a cerca de 180 km de Banguecoque, este parque nacional tailandês alberga uma interessante variedade de fauna e flora, justificando assim a sua classificação como património mundial pela UNESCO, enquanto parte integrante do complexo florestal Dong Phayayen - Khao Yai, que se prolonga para lá da fronteira com o Camboja. Aos viajantes é interdito aventurarem-se no interior da floresta e mesmo nos percuros autorizados, é exigido que se façam acompanhar por um guia.

O nosso é dos melhores. Com uma simpatia simples, que não esbanja mesuras, e um conhecimento feito de muitas e muitas horas a trilhar estes caminhos, vai-nos levando para os recantos onde adivinha estar a bicharada.

Durante o dia de passeio, alternando entre percursos de carro e caminhadas por entre as árvores, vamo-nos deparando com caras familiares e desconhecidas. Aqui um amigo macaco, ali um esquivo gibão, mais adiante um hornbill com o seu bater de asas magnífico, formigueiros que se erguem em altura, árvores milenares, formigas de corpo graúdo e determinação evidente, aranhas e as suas teias palacianas, e tantas outras maravilhas que testemunhamos enquanto avançamos pelo parque dentro.

Sinto no coração destemido a euforia de uma pequena aventura, a qual se vê ocasionalmente moderada por algumas doses de realidade, como quando o nosso guia decide alertar-nos para os perigos da febre da carraça, animal aparentemente abundante nestas florestas. Num automatismo colectivo, as mulheres do grupo levam as mãos aos cabelos, buscando possíveis inquilinos indesejados.

Todo o dia esperamos em vão o grande encontro com os elefantes. Nada é garantido no que toca a avistar bichos no seu habitat natural, por isso com o cair da tarde vamo-nos fazendo tristemente à ideia de que as cartas não nos reservaram tal privilégio. Eis que o telemóvel do nosso guia toca e partimos a todo o vapor. Sem mais palavras, sabemos que veio o alerta esperado: elefantes à vista!

Num incrível golpe de sorte, temos não um, não dois, mas três encontros imediatos de terceiro grau com elefantes, e se bem que por razões de segurança não nos seja permitido sair do carro, a proximidade é inegável. Entre a excitação de conseguir mais um minuto de vídeo e o cuidado para não irritar o objecto da nossa atenção, terminamos o dia num ponto alto.

Regressados à pensão, com caras felizes e corpos cansados, espera-nos um banho bem fresco, longe de ideal nesta zona de temperaturas baixas, mas indispensável para demover eventuais carraça ou sanguessugas dos seus propósitos maléficos. Eu, que gosto dos meus banhos com água pronta a cozer camarões, e que todo o dia jurei que banho ali nem pensar, entro com um gritinho contido na água gelada. E é nisto que, por entre tremeliques e arrepios, sinto um calorzinho inesperado chegar-me ao coração. O calorzinho orgulhoso de quem acabou de conquistar mais um pequeno desafio.






Fotografia tirada pelo guia
Fotografia tirada pelo guia
Fotografia tirada pelo guia


Aventuras em Khao Yai - parte I

Chegámos de noite. O carro encostou na berma da estrada e uma cara assomou ao vidro, confirmando que era ali. Era ali que eu ia dormir. Olhei para o outro lado do asfalto com olhos piscos. No meio do escuro vi um pequeno restaurante, meia dúzia de pessoas sentadas e nada mais. Nenhum letreiro, nenhum edifício em forma de pensão, nenhum sinal de ajuntamento humano assinalável. Mas garantiam-me que era ali o sítio certo e eu, atraída por aquele magnetismo irresistível que assiste às coisas que não têm mais remédio, segui o rapaz que me viera buscar.

A viagem que parecia simples começara com uma atrapalhação. Tinham-me muito generosamente oferecido uma boleia de Surin para as imediações de Pak Chong, onde eu ia passar a noite, para no dia seguinte fazer um trekking no parque nacional de Khao Yai. E eu aceitara. A proposta era sairmos pelas quatro e chegarmos pelas sete, mas ainda antes de nos pormos a caminho chegara a notícia de que o último troço de estrada para o meu destino final estava atulhado de trânsito, à conta de um concerto. A alternativa era ir de mota, com armas e bagagens. E mesmo assim ia levar o seu tempo. Torci-me toda por dentro, mas impedi-me de dar parte de fraca.

Contudo, este não seria o fim das atribulações. Algures a meio do percurso, o azar voltou a abater-se sobre a nossa pequena nau de quatro rodas e vimo-nos perdidos por terrenos escuros como breu e com buracos em forma de cratera lunar - e, é claro, sem GPS nem sinal no telemóvel! Quando, por fim, regressámos ao trilho conhecido iamos com um atraso assinalável e ainda nem tinhamos de chegar ao troço supostamente demorado.

Acho que roí unhas durante uma boa hora, até a actividade me ter esgotado a tal ponto que adormeci. Quando acordei tinhamos milagrosamente chegado, sem mota nem fila de que me tivesse apercebido. Como naquela magia que só o teatro e as viagens consentem, a catástrofe iminente fora misteriosamente evitada, -de certo que muito por mérito de quem, ao volante, venceu o cansaço para me levar ao destino final.

E contudo, nem assim se soltou do meu peito o proverbial suspiro de alívio. Pois aqui estava eu, ainda coberta de sono, a tentar em vão descortinar na noite cerrada os contornos da pensão cujas fotografias me recordava de ter visto na internet.

Sim senhora, dizia a cara do outro lado do vidro, era ali mesmo. Retomando mochilas e pensamento consciente, segui o rapaz. Os meus generosos convivas, depois de me acompanharem até ao outro lado da estrada e me verem bem entregue, voltaram a pôr-se ao caminho.

Dizer que atravessei o conjunto de mesinhas e bancos baixos à beira do asfalto com desconfiança no coração é dizer pouco. Dirigindo-nos às traseira do estabelecimento, passámos por um pequeno corredor, por um largo, por diferentes portas cerradas, sempre na semi-obscuridade, até que por fim, com o abrir de uma última porta, a luz se fez das trevas. Ali ia dormir, entre quatro paredes nuas, uma cama e uma casa de banho com sanita, lavatório e duche de água fria. Sem luxos, mas funcional. Deixaram-me as chaves, citaram-me um preço simpático e no mais gaguejaram perante as minhas subsequentes tentativas de colocar questões em inglês. 

Por via das dúvidas, mal me deixaram sozinha voltei a sair do quarto e fui interrogar a meia dúzia de pessoas que me lembrava de ter visto lá fora, sentada nas mesinhas. Sim, era mesmo aquela a guesthouse certa. Sim, era dali que saía o tour do dia seguinte para o parque Khao Yai. Por fim relaxei. A visão de túnel feita de stress e cansaço começou a dissipar-se e o meu cérebro dedicou-se finalmente a juntar as peças soltas daquele cenário e a construir uma pensão de beira de estrada, vulgar de Lineu, sem fantasmas evidentes nem esquemas ocultos.

Fora um dia longo e estava deserta por um banho e cama, mas a temperatura de fazer bater o dente e a ausência de água quente no chuveiro fizeram-me ficar pela segunda. Enrolei-me no meu polar, no forro de saco-cama e por fim na manta disponível, deixando trepar o calor pelas pernas acima. Denso como um manto, o sono não tardou em retomar o seu posto.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Surin em família

With much gratitude to J. and her family, who took me into their home with great generosity, warmth and kindness

Em Surin acabei de lavar as minhas mágoas com Banguecoque. Foi aqui que vim descobrir a outra Tailândia, a tal dos sorrisos, dos braços abertos, da grande generosidade.

Estamos no nordeste do país, na região do Isan. Li algures que menos de dois por cento dos turistas na Tailândia ruma a estas paragens. Não sei se é verdade, mas qualquer que seja o número, não registo mais que uma dezena de rostos ocidentais nos dias que aqui passo.

Passeando por Surin e arredores, vou anotando as diferenças. As estradas desimpedem-se e fazem-se ladear de paisagem agrícolas ou, no centro das cidades, de pequeno e médio comércio local. Ruínas e templos surgem mais espaçados entre si. O inglês reduz notoriamente a sua presença. Espaços e negócios destinados a estrangeiros deixam de sobressair. Na região do Isan, como talvez em poucos lugares na Tailândia, pressente-se um universo intensamente local, onde a indústria turística não se converteu ainda na medida principal de todas as coisas.

Foi em busca desse caminho menos percorrido que planeei a minha vinda ao nordeste tailandês. Valeu-me de encorajamento a grande sorte de me apresentarem a J., uma jovem tailandesa, amiga de uma amiga, a residir em Surin. Ela e a sua família acolheram-me sem reservas. Receberam-me magnificamente no seu lar, deram-me a conhecer a deliciosa comida local, os pontos de interesse da região, as rotinas e hábitos de cada lugar, e sobretudo - o que mais me tocou - convidaram-me a tomar parte do seu quotidiano familiar, partilhando comigo os seus dias. Gentilezas várias, que não esquecerei, e que me ajudaram a espreitar para lá do véu sob o qual um turista inevitavelmente experiencia uma terra.

O passeio de quatro dias começou neste templo, com o primeiro de inúmeros degraus alinhados em direcção ao Buda. Seguindo a tradição, entretive-me a fazer soar cada um dos sinos a caminho do topo, e depois também ao descer. No cimo, esperava-me como recompensa o olhar aprovador de dois Budas.




Noutro templo encontrei dezenas de caras sorridentes e olhos semi-cerrados, quem sabe se em meditação colectiva sobre a natuteza da iluminação. E logo em seguida encontrei a sua antítese, sob a forma de peixes vorazes e muito pouco inclinados à serenidade.



Noutro local, e no fim de mais umas escadas, mais um Buda.


Uma das visitas mais bonitas do meu curto périplo pelo Isan foi a que fiz às ruínas Khmers de Phanom Rung, sugestivamente situadas no topo de um vulcão extinto e envoltas em lindas vistas sobre os povoados mais abaixo.




O momento de glória de Surin tem lugar anualmente, num fim-de-semana em Novembro, durante o famoso festival de elefantes (elephant round-up). Centena destes gentis paquidermes são trazidos para a cidade pelos mahouts (treinadores), exibindo perante o público as suas proezas em jogos e espectáculos vários.

Fora desse período, e seguindo uma tradição com centenas de anos, é na aldeia Ban Tha Klang, a cerca de 60 km da cidade, que continuam a albergar-se os elefantes da região, com os respectivos mahouts e suas famílias.

Na aldeia é possível visitar o Elephant Study Center, observar os elefantes nas suas rotinas diárias e assistir a espectáculos em  que os mesmos realizam proezas como jogar futebol, pintar quadros ou "massajar" as costas de turistas voluntários. Durante o espectáculo são vendidos pedaços de bambu para dar de alimento às estrelas do show, alimento esse que trombas ávidas recolhem sem demora, no intervalo de cada número.

Visitei o local numa tarde quente, em busca de informação sobre o Surin Project, sobre o qual tinha lido na Internet. Desenvolvido pela Elephant Nature Foundation em colaboração com a Surin Provincial Administration Organization, este projecto procura fomentar em Ban Tha Klang melhores condições de vida para os elefantes e para os mahouts, evitando que por falta de recursos os animais fiquem acorrentados dias inteiros, sejam forçados a participar em mendicidade nas grandes cidades ou espectáculos de circo ou utilizados para as turísticas elephant rides.



Uma visita a uma cidade jamais fica completa sem um giro pelo respectivo mercado nocturno. No norte da Tailândia, os insectos são uma iguaria muito apreciada, e como tal não poderia faltar uma banquinha bem recheada deles.


Por fim, na aldeia Ban Tha Sawang, ouvi falar sobre o laborioso processo de trabalhar a seda.



Em breve chegou a hora das despedidas. Deixei Surin com um bilhete de comboio no bolso e a alma cheia. Quem sabe... talvez o futuro me reserve um reencontro com a J. e a sua acolhedora família. Talvez tenha, um dia, a oportunidade de retribuir as suas gentilezas, servindo eu de anfitriã em Portugal. Até lá, ficam-me as boas memórias e a gratidão.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ayutthaya ao entardecer

O sol esboroa-se sobre ruínas e arrasta o dia para o seu final. Caminhamos de câmara na mão, procurando o retrato perfeito do seu vermelho saturado, apressadas pela rapidez com que se esvai para lá da linha do horizonte.

Estamos longe do bulício de Banguecoque, tão longe quanto se pode estar numa cidade comparativamente pequena, polvilhada por ruínas de templos, alguns restaurantes, um mercadinho nocturno e um modesto punhado de turistas conduzindo bicicletas pelas ruas.

Ayutthaya, antiga capital do reino de Sião, destruída no séc. XVIII pelo exército birmanês e hoje classificada como património mundial pela UNESCO, faz parte do circuito turístico habitual. Uma paragem intermédia na concorrida linha ferroviária que une a capital e à popularíssima Chiang Mai, mais a norte.

Porém, no dia solarengo de Dezembro em que aqui desembarco, encontro-a surpreendentemente pachorrenta, movida apenas ao de leve pela correnteza de visitantes, mas no essencial voltada para o ritmo e para a lógica do seu dia-a-dia local.

Aqui chega-se de comboio, em cerca de três horas de viagem num vagão de terceira classe com janelas abertas de par em par, por onde passa o vento que despenteia e refresca. Foi aí que nos conhecemos, a holandesa e a portuguesa, as duas unida agora pelo benefício mútuo de um quarto partilhado.

À luz serena do entardecer, fazemos disparar as nossas máquinas, maravilhando-nos com a beleza do que nos rodeia. Caminhamos por relva e terra batida, evitamos os grupos de cães que reclamam como território seu certas áreas das ruínas, pegamos nas nossas duas rodas e lá zarpamos para o templo seguinte.

Conversamos dos tudos e nadas das nossas vidas, com aquele à-vontade que só em viagem é possível. De quando em quando, ziguezagueando por avenidas largas, passamos um cruzamento e ela alerta-me para qual o lado certo da estrada, já bem ciente da incapacidade do meu cérebro se habituar a uma simples inversão na regra da circulação à direita.

Finalmente, anoitece. Depois de um jantar de pad thai e um pequeno passeio no mercado nocturno, regressamos à pensão, onde nos espera um espanhol que conhecemos no comboio também. A noite passa-se em amena cavaqueira na esplanada do bar, com pernas e braços inocentes servindo de banquete aos mosquitos que rondam furiosamente.

No dia seguinte, fazemos os três uma última ronda em bicicleta, rumo a um templo envolto em silêncio e Budas de olhos postos no infinito. Combinamos um ponto de encontro e deixamo-nos vogar por trilhos separados, cada qual entregue ao seu ritmo pessoal. Caminho devagar entre as fileiras de Budas. A manhã está clara e o sol faz reluzir túnicas amarelas, que baloiçam ao vento. Por momentos deixo-me ficar quieta, a fitar as dezenas olhos de pedra, quem sabe se em busca de uma centelha de iluminação. Por fim subo as escadas em direcção ao topo da torre central e observo a vida vista do alto. Vejo cenas soltas passarem, sucumbindo à transitoriedade natural de todas as coisas.

Chega a hora do reencontro. No parque de estacionamento, regressamos às nossas bicicletas, distribuimos abraços, adeuses e desejos de boa sorte, e dispersamos depois, cada qual para o seu destino turístico seguinte. Com quase toda a certeza, nunca mais saberei de qualquer um deles. Do encontro não me ficam contactos nem fotografias de grupo, apenas a memória de qualquer coisa que alterou o curso dos meus dias. Assim é, por vezes, pela estrada fora.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Três retratos de Banguecoque

Se regras existem na cartilha do visitante de Banguecoque, entre elas está seguramente a obrigatoriedade de uma peregrinação à afamada e historicamente significativa tríade de templos, Wat Phra Kaew, repositório do Buda de Esmeralda e vizinho imediato do Grande Palácio, Wat Pho, onde o Buda permanece para sempre reclinado, e Wat Arun, o templo da madrugada.

Reluzindo ao sol como satélites terrestres da sua luz, estes complexos imponentes exibem com orgulho os seus dourados e cores garridas, os seus alinhamentos de Budas impávidos, as suas torres dirigidas ao céu, as suas paredes revestidas de murais de velha porcelana chinesa quebrada e reaproveitada para decoração, a sua estatuária peculiar e variada, os seus corredores frescos e escadarias intermináveis, cada qual recorrendo a uma surpreendente estética de opulência para exprimir na terra a majestade dos propósitos espirituais de despojamento e iluminação budistas.

Entrando e saindo de cada um destes lugares, uma pessoa rapidamente lhes descobre as regras essenciais. Nada de sapatos, que devem ser deixados à porta, como sucede, aliás, na maioria das casas e lojas tailandesas. Nada de ombros descobertos, decotes, calções ou saias acima do joelho. Nada de apontar os dedos dos pés ao Buda: devem estar recolhidos para o lado ou para trás.

Em cada canto, os monges aparecem em visões de laranja e eu, como mulher, devo ter o cuidado suplementar de não ficar a sós com eles, não lhes tocar, nem lhes entregar nada para as mãos directamente.

Wat Phra Kaew
Wat Pho
Wat Arun

*

Em Banguecoque, os encontros com a A. e o R. tornam-se o meu pequeno ritual diário. Os nossos planos para o dia-a-dia nem sempre coincidem, mas ao cair da noite é quase infalível a reunião em torno de uma refeição partilhada.

Frequentamos assiduamente um pequeno restaurante a dois passos do meu hostel, onde, além de comida, se faz magia. Alguns truques são engraçados, outros magnificamente bons. A moeda que penetra o fundo de uma garrafa de vidro. O pedaço de carta rasgado à nossa frente, que reaparece cravado dentro de um gomo de tomate cortado diante dos nossos olhos. Impossível! Viste aquilo?! Como é que... Mas é mesmo assim. Não saber faz parte do encanto, parte da diversão. É o que ele nos diz, o gerente, o mágico de serviço, o perfeito entertainer, sempre que tentamos levantar o véu que cobre o mistério.

O melhor truque de magia de sempre,
num restaurante em Khao San

*

Aterra-se na Ásia com medo de quase tudo. Da água, da comida de rua, da fruta sem casca, dos legumes crus, das bebidas com gelo, dos gelados... Nos primeiros dias, caminha-se pelas ruas e a cada canto recordam-se os alertas da consulta do viajante e as histórias de terror lidas online.

Depois, um dia, o corpo avisa-nos de que não vai ficar um ano a bananas e sopas fervidas. Depois, um dia, alguém nos oferece uma bebida gelada que não podemos, sob pena de descortesia, recusar. Depois, um dia, a gula e o calor pedem um gelado.

E com o tempo as regras vão cedendo, rachando aqui e ali como madeira velha, até a casa das nossas cautelas alimentares ruir por completo. Ou quase. Ficam os cuidados com a água e umas coisas mais, mas passa a ser um teste de instinto que é aplicado a tudo o resto. Um teste do tipo, sinto que é fresco ou não. Acho que vai correr mal ou não. Muito pouco científico, concedo, mas do mais eficaz que existe.

Na China, só lá para meio do caminho é que comecei a aligeirar os medos e a perceber que, para além de algum bom senso importante, o mais eram exageros. Mas Banguecoque foi o sítio onde perdi de vez a maioria das teimas e receios em matéria de alimentação. E ainda bem, porque se há coisa que aqui vale a pena, é comer de tudo um pouco.

Pequeno almoço: mini-crepes com recheio de
côco e milho
A delícia da jaca
Gelado de côco servido na casca do próprio fruto
Pad Thai - um de muitos!
Chá tailandês com leite, a minha nova obsessão
Tom Yum
Manga com sticky rice e leite de côco
Cerveja Singha, melhor que as concorrentes