segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Aventuras em Khao Yai - parte I

Chegámos de noite. O carro encostou na berma da estrada e uma cara assomou ao vidro, confirmando que era ali. Era ali que eu ia dormir. Olhei para o outro lado do asfalto com olhos piscos. No meio do escuro vi um pequeno restaurante, meia dúzia de pessoas sentadas e nada mais. Nenhum letreiro, nenhum edifício em forma de pensão, nenhum sinal de ajuntamento humano assinalável. Mas garantiam-me que era ali o sítio certo e eu, atraída por aquele magnetismo irresistível que assiste às coisas que não têm mais remédio, segui o rapaz que me viera buscar.

A viagem que parecia simples começara com uma atrapalhação. Tinham-me muito generosamente oferecido uma boleia de Surin para as imediações de Pak Chong, onde eu ia passar a noite, para no dia seguinte fazer um trekking no parque nacional de Khao Yai. E eu aceitara. A proposta era sairmos pelas quatro e chegarmos pelas sete, mas ainda antes de nos pormos a caminho chegara a notícia de que o último troço de estrada para o meu destino final estava atulhado de trânsito, à conta de um concerto. A alternativa era ir de mota, com armas e bagagens. E mesmo assim ia levar o seu tempo. Torci-me toda por dentro, mas impedi-me de dar parte de fraca.

Contudo, este não seria o fim das atribulações. Algures a meio do percurso, o azar voltou a abater-se sobre a nossa pequena nau de quatro rodas e vimo-nos perdidos por terrenos escuros como breu e com buracos em forma de cratera lunar - e, é claro, sem GPS nem sinal no telemóvel! Quando, por fim, regressámos ao trilho conhecido iamos com um atraso assinalável e ainda nem tinhamos de chegar ao troço supostamente demorado.

Acho que roí unhas durante uma boa hora, até a actividade me ter esgotado a tal ponto que adormeci. Quando acordei tinhamos milagrosamente chegado, sem mota nem fila de que me tivesse apercebido. Como naquela magia que só o teatro e as viagens consentem, a catástrofe iminente fora misteriosamente evitada, -de certo que muito por mérito de quem, ao volante, venceu o cansaço para me levar ao destino final.

E contudo, nem assim se soltou do meu peito o proverbial suspiro de alívio. Pois aqui estava eu, ainda coberta de sono, a tentar em vão descortinar na noite cerrada os contornos da pensão cujas fotografias me recordava de ter visto na internet.

Sim senhora, dizia a cara do outro lado do vidro, era ali mesmo. Retomando mochilas e pensamento consciente, segui o rapaz. Os meus generosos convivas, depois de me acompanharem até ao outro lado da estrada e me verem bem entregue, voltaram a pôr-se ao caminho.

Dizer que atravessei o conjunto de mesinhas e bancos baixos à beira do asfalto com desconfiança no coração é dizer pouco. Dirigindo-nos às traseira do estabelecimento, passámos por um pequeno corredor, por um largo, por diferentes portas cerradas, sempre na semi-obscuridade, até que por fim, com o abrir de uma última porta, a luz se fez das trevas. Ali ia dormir, entre quatro paredes nuas, uma cama e uma casa de banho com sanita, lavatório e duche de água fria. Sem luxos, mas funcional. Deixaram-me as chaves, citaram-me um preço simpático e no mais gaguejaram perante as minhas subsequentes tentativas de colocar questões em inglês. 

Por via das dúvidas, mal me deixaram sozinha voltei a sair do quarto e fui interrogar a meia dúzia de pessoas que me lembrava de ter visto lá fora, sentada nas mesinhas. Sim, era mesmo aquela a guesthouse certa. Sim, era dali que saía o tour do dia seguinte para o parque Khao Yai. Por fim relaxei. A visão de túnel feita de stress e cansaço começou a dissipar-se e o meu cérebro dedicou-se finalmente a juntar as peças soltas daquele cenário e a construir uma pensão de beira de estrada, vulgar de Lineu, sem fantasmas evidentes nem esquemas ocultos.

Fora um dia longo e estava deserta por um banho e cama, mas a temperatura de fazer bater o dente e a ausência de água quente no chuveiro fizeram-me ficar pela segunda. Enrolei-me no meu polar, no forro de saco-cama e por fim na manta disponível, deixando trepar o calor pelas pernas acima. Denso como um manto, o sono não tardou em retomar o seu posto.

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