sábado, 11 de janeiro de 2014

Dias quentes na cidade inquieta - parte I

Aterro em Banguecoque. Uma parede de calor húmido empurra-me dois metros à retaguarda assim que cruzo a porta do aeroporto de Don Muang, situado a cerca de 25km do centro da cidade. Aturdida como uma mosca mole de fim de Verão, procuro focar os sentidos, numa tentativa vã de interpretar o caos que sempre se instala com a chegada a um novo lugar.

Estamos à beira da estrada. Sem sequer um piscar de olhos, J. avança como se com facas pela parede dentro e acena ao taxi cor-de-rosa que se aproxima, indicando-lhe que pare. Deposito a mochila na bagageira e entro para o banco da frente, importando por uns breves segundos o meu calor para dentro do habitáculo artificialmentente gelado. Lentamente, sinto-me regressar a mim.

J. é tailandesa e amiga de uma amiga. Após os nossos primeiros contactos, via Internet, teve a generosidade de me convidar a passar uns dias em casa da sua família, na província de Isaan. Mas isso será depois. Hoje, de passagem por Baguecoque, veio buscar-me ao aeroporto por causa dos protestos.

Durante as últimas semanas a imprensa internacional tem dado conta da tensão crescente que se instala nas ruas da capital tailandesa, dirigida contra o Governo, e apesar de ter decidido vir na mesma, não posso afastar uma centelha de insegurança quanto ao que cenário que me espera no outro lado desta viagem de táxi.

Deslizamos pela autoestrada, fintando o trânsito, enquanto os arredores da cidade vão desfiando a sua história num emaranhado de casas e arruamentos para lá do que a vista alcança. O rádio palra, incompreensível, mas de algum modo universal.

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Horas depois estou no hostel, compartimentada entre um cacifo e a cama de cima de um beliche e aguardando a hora de ir ter com os meus amigos A. e R., dois portugueses também em viagem com os quais o destino me quis reunir nesta cidade. Passarei parte dos próximos dias com eles, num interlúdio imprevisto mas muito bem-vindo na rotina desta viagem a solo.

Do meu novo poiso na área de Khao San, a manifestação pressente-se mais do que se avista. Ruas cortadas alertam o turista para que desvie os seus passos, ruídos distantes deixam supor algo de invulgar e os percursos de autocarro revelam-se impossíveis de realizar nos termos habituais, denunciando entorces à norma do dia-a-dia. Mas nos circuitos e atracções turísticos um pessoa sente-se surpreendentemente distante de tudo isso, como se duas ou três ruas de intervalo bastassem para abrir um universo paralelo onde o tumulto não pudesse chegar.

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Talvez esta estranha tranquilidade resulte da noção de que os protestos têm, até aqui, sido relativamente pacíficos. Certo dia, regressando ao hostel depois de uma manhã de passeio, esbarro com uma pequena multidão acenando bandeiras e brandindo megafones em frente a um Ministério da Defesa alarmantemente couraçado por arame farpado e uma barreira policial compacta. Apesar do aparato visual e sonoro, é-me permitido passar sem perigo, penetrando as entranhas do ajuntamento, onde outros turistas permanecem especados com os seus telemóveis e máquinas fotográficas em punho. Uma electricidade palpável percorre o ar, propagando-se através dos corpos esticados e vigorosos e com cada grito ou palavra de ordem. Mas de um e outro lado da barricada, algo impede a explosão.

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Só dias mais tarde, com o exaltar dos ânimos, os protestos ganharão forma e dimensão concreta para a maioria de nós, turistas de passagem pela cidade. Uma madrugada quente virá juntar o som de tiros ao coro de vozes indignadas que habitualmente se pode ouvir à distância. No dia seguinte, a cifra negra de quatro mortes chega à imprensa e as ruas em redor de Khao San amanhecem desertas das habituais bancas de roupa, fruta e demais comes e bebes.

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Passarei quase quatro semanas na Tailândia. Durante esse tempo encontro nas opiniões alheias visões radicalmente opostas destes protestos. Há quem os condene como desculpa para afastar um Governo democraticamente eleito. Há quem os defenda como a única forma de depor um Governo que consideram corrupto, controlado de facto pelo irmão da actual Primeira Ministra.

Certo é que estas cisões não são de hoje. Os actuais protestos trazem atrás de si um longo historial de tensões políticas na Tailândia e a memória dos incidentes violentos de 2010 ainda paira no imaginário colectivo como um sinal de alerta. Camisas vermelhas de um lado, camisas amarelas de outro, é a expressão cromática simples de uma equação política complexa, que ao longo dos anos se tem furtado a uma solução definitiva.

Vou passando os olhos pela imprensa, à procura de novidades e possíveis sinais de alerta. Variáveis como ondas, as manifestações vão-se inflamando e aplacando ao sabor dos acontecimentos, até um dia a notícia sair nas primeiras páginas: Parlamento dissolvido, o país avançará para novas eleições. As manifestações, essas, continuam.

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