terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ayutthaya ao entardecer

O sol esboroa-se sobre ruínas e arrasta o dia para o seu final. Caminhamos de câmara na mão, procurando o retrato perfeito do seu vermelho saturado, apressadas pela rapidez com que se esvai para lá da linha do horizonte.

Estamos longe do bulício de Banguecoque, tão longe quanto se pode estar numa cidade comparativamente pequena, polvilhada por ruínas de templos, alguns restaurantes, um mercadinho nocturno e um modesto punhado de turistas conduzindo bicicletas pelas ruas.

Ayutthaya, antiga capital do reino de Sião, destruída no séc. XVIII pelo exército birmanês e hoje classificada como património mundial pela UNESCO, faz parte do circuito turístico habitual. Uma paragem intermédia na concorrida linha ferroviária que une a capital e à popularíssima Chiang Mai, mais a norte.

Porém, no dia solarengo de Dezembro em que aqui desembarco, encontro-a surpreendentemente pachorrenta, movida apenas ao de leve pela correnteza de visitantes, mas no essencial voltada para o ritmo e para a lógica do seu dia-a-dia local.

Aqui chega-se de comboio, em cerca de três horas de viagem num vagão de terceira classe com janelas abertas de par em par, por onde passa o vento que despenteia e refresca. Foi aí que nos conhecemos, a holandesa e a portuguesa, as duas unida agora pelo benefício mútuo de um quarto partilhado.

À luz serena do entardecer, fazemos disparar as nossas máquinas, maravilhando-nos com a beleza do que nos rodeia. Caminhamos por relva e terra batida, evitamos os grupos de cães que reclamam como território seu certas áreas das ruínas, pegamos nas nossas duas rodas e lá zarpamos para o templo seguinte.

Conversamos dos tudos e nadas das nossas vidas, com aquele à-vontade que só em viagem é possível. De quando em quando, ziguezagueando por avenidas largas, passamos um cruzamento e ela alerta-me para qual o lado certo da estrada, já bem ciente da incapacidade do meu cérebro se habituar a uma simples inversão na regra da circulação à direita.

Finalmente, anoitece. Depois de um jantar de pad thai e um pequeno passeio no mercado nocturno, regressamos à pensão, onde nos espera um espanhol que conhecemos no comboio também. A noite passa-se em amena cavaqueira na esplanada do bar, com pernas e braços inocentes servindo de banquete aos mosquitos que rondam furiosamente.

No dia seguinte, fazemos os três uma última ronda em bicicleta, rumo a um templo envolto em silêncio e Budas de olhos postos no infinito. Combinamos um ponto de encontro e deixamo-nos vogar por trilhos separados, cada qual entregue ao seu ritmo pessoal. Caminho devagar entre as fileiras de Budas. A manhã está clara e o sol faz reluzir túnicas amarelas, que baloiçam ao vento. Por momentos deixo-me ficar quieta, a fitar as dezenas olhos de pedra, quem sabe se em busca de uma centelha de iluminação. Por fim subo as escadas em direcção ao topo da torre central e observo a vida vista do alto. Vejo cenas soltas passarem, sucumbindo à transitoriedade natural de todas as coisas.

Chega a hora do reencontro. No parque de estacionamento, regressamos às nossas bicicletas, distribuimos abraços, adeuses e desejos de boa sorte, e dispersamos depois, cada qual para o seu destino turístico seguinte. Com quase toda a certeza, nunca mais saberei de qualquer um deles. Do encontro não me ficam contactos nem fotografias de grupo, apenas a memória de qualquer coisa que alterou o curso dos meus dias. Assim é, por vezes, pela estrada fora.

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