sábado, 1 de fevereiro de 2014

Amor à segunda vista em Chiang Mai - parte I

Não era uma casa portuguesa, com certeza. Era uma caixa de fósforos a que chamavam quarto, tão diminuta que um duende se sentiria apertado, e com paredes de madeira que deixavam passar a luz e o ruído por mil e uma frinchas, já para nada dizer da ampla janela voltada para a escadaria principal. Trocar de roupa sem exposição total só era possível de luz apagada e em posição estratégica num dos cantos do quarto. Dormir de um sono só, nem pensar.

O que pagava por noite não permitia grandes queixas, é certo. Em todo o caso, qualquer destas deficiências empalidecia perante uma outra, a real e indesculpável falha, que era o nível deplorável do serviço naquele que poderia muito bem merecer o título do hostel mais antipático do mundo.

Mas as coisas são mesmo assim: vivendo e aprendendo. E eu, depois de três noites de resistência orgulhosa e nervos à flor da pele, aprendi a valiosa lição de que se tudo cheira a reduto backpacker hiperturístico movido em exclusivo pela vontade de fazer dinheiro, é porque muito provavelmente é. Por fim, as circunstâncias fizeram com que saltasse para a pensão do lado. E ainda que o meu bolso tenha ficado um pouco mais leve durante essa segunda estadia, foi grandemente poupada a minha saúde mental.

É a partir do meu poiso neste paraíso reencontrado que posso finalmente descontrair e entregar-me à minha história de amor com Chiang Mai. Não vou dizer que não é uma cidade turística, porque em grande medida é exactamente isso que Chiang Mai é. Mas enquanto que as ruas de Banguecoque, mais a sul, levaram o seu casamento com a indústria turística até ao amargo final, as de Chiang Mai, por se turno, parecem ter congelado o romance num eterno estado de namoro prazenteiro, repleto de sorrisos e pequenas surpresas.

A entrada em Chiang Mai faz-se geralmente de comboio, com a manhã ainda no seu começo. Ao contrário dos homónimos chineses em que andei, este sleeper train tailandês não tinha vagões com camas montadas em permanência. Uma pessoa entra e senta-se em bancos normais, que algures a meio do caminho um elemento da tripulação vem transformar em camas com uma habilidade e rapidez invejáveis. Quem fica no andar de baixo tem mais espaço de manobra, quem poupa uns euros e escolhe o de cima ou é pequeno ou encolhe-se um pouco mais. E perde o privilégio de uma janela, o que significa que sem sair do conforto da cama perde também o raiar da aurora. Mas seja qual for o cubículo escolhido, é toda uma experiência em si mesma imperdível, esta viagem nocturna, mesmo tendo em conta os níveis incompreensivelmente árticos do ar condicionado no comboio em que viajei.

Ainda antes de desembarcar já tinha atado os laços de uma nova amizade com o M., um rapaz belga que por acaso se veio sentar ao meu lado no comboio, quando amanheceu, de café na mão e olhos ensonados. Passei com ele os primeiros dias em Chiang Mai e os dias seguintes com o R. e a A., os meus amigos que de Banguecoque também aqui vieram parar.

Uma vez na cidade, rapidamente me instalo na miríade de rituais diários que tanto aprecio. O mesmo é dizer, descrubo os meus recantos nos cantos da cidade. O templo mais bonito, com os seus tijolos e Budas cobertos de luz alaranjada assim que a noite cai. A esquina onde a cidade ruidosa se esbate para dar lugar a ruelas cobertas de árvores silenciosas. O café onde servem o melhor masala chai, bebido com indolência, com costas reclinadas sobre almofadas espalhadas pelo chão. O sítio de brunch com produtos biológicos e manteiga verdadeira. A loja de livros usados que não guarda os seus livros em plástico, permitindo assim folheá-los. O mercado onde se vendem jaca, mangostão e outras delícias de comer à mão cheia. A escola de massagem onde, em menos de nada e a preços de amigo, mãos experientes roubam quilos de peso a pés e pernas massacrados por dias na estrada.

É também aqui que tenho a minha primeira, e a até à data única, experiência de Monk Chat, um programa existente em vários templos que cria espaços de conversa entre visitantes e monges, permitindo aos primeiros aprenderem mais sobre o Budismo e a vida monástica e aos segundos melhorarem o seu inglês.

Se problema existe nesta simpática cidade - certo e sabido, nenhum namoro é perfeito - é que uma vez deixado o interior das muralhas que delimitam a cidade velha, o ar pertence aos motores, ao fumo, ao barulho. Mas há suficiente Chiang Mai para encontrar refúgio. Há suficiente Chiang Mai para fazer algo diferente, ou para não fazer nada, porque chove ou porque simplesmente apetece a inércia. Que delícia, num dia cinzento, bebericar um chai fumegante e conversar como quem joga pingue-pongue com o R. e a A., ou tão-simplesmente deixar passar a chuva enquanto se folheiam livros tirados aleatoriamente de uma estante. Não, não foi à toa que Chiang Mai conseguiu reunir uma comunidade apreciável de expats residentes e um coro de vozes que louva regularmente os seus méritos nos fóruns da Internet.

Passo dias a pensar passar mais dias. Tenho um pé que não quer cruzar a soleira da porta e outro que me diz que é demasiado cedo para assentar arraiais. No fim, a lógica da viagem impõe-se e o namoro termina, com um último adeus e inúmeras promessas de regresso. Não sei se estas promessas algum dia serão cumpridas, mas aquece-me o coração pensar que sim.

Esplendor dourado num dos muitos Wat
(templos) da cidade
"O" brunch e "a" manteiga
Wat Chedi Luang fora de horas
O magostão revela os seus segredos
 Num recanto escondido, o momento inesperado
Desporto e diversão: a linguagem universal
Vida de bairro

2 comentários: