O barco ancora num morro de lama íngreme, o motor emudece e no seu inglês curto a tripulação avisa que é o fim da linha.
- Luang Prabang, Luang Prabang!
Olhares incrédulos, um murmúrio crescente, e logo uma voz indignada:
- No, not here, Luang Prabang!
A toda a volta, há um crispar de músculos colectivo, caras circunspectas e corpos hirtos preparando os espíritos para a ira profunda, rápida, implacável. Cedo se arma um pequeno motim. Há quem recuse mexer-se, recolher as malas, sair do barco, há quem se indigne e diga que comprou um bilhete para Luang Prabang e que só em Luang Prabang há-de desembarcar. Há quem fale de esquemas para ludibriar estrangeiros, quem ameace ficar no barco o tempo que for preciso.
Outros parecem resignar-se e pôr-se em marcha.
Por mim, vim semi-preparada. Tinha lido num fórum virtual que isto poderia acontecer, sermos deixados a seis quilómetros do centro da cidade para depois apanharmos um tuk tuk até ao destino final. A explicação oficial? Que o cais tinha mudado para ali, para descongestionar o trânsito junto à cidade, doravante reservado aos locais. A versão mais céptica? Que tudo se resumia a conseguir uns cobres extra para os condutores de tuk tuk.
Qualquer que seja a verdade, confesso que nenhuma das opções me repugna. Mas ocorre-me, enquanto suo as estopinhas para trepar pela lama escorregadia acima com duas mochilas às costas, que talvez tivesse sido interessante construirem efectivamente um cais (ou uns meros degraus de madeira) antes de declararem inaugurado o trajecto alternativo. Pergunto-me, enquanto um senhor amavelmente me estende a mão e me iça para terra mais plana, o que fariam pessoas idosas ou com mobilidade reduzida ante esta subida acidentada.
Claro que certas realidades aceitam poucos argumentos e verdadeiramente não têm remédio. Esta é uma delas. Há que trepar, calar e fazer fila para o bilhete de tuk tuk. Cumpridas as formalidades, e ladeada pelas minhas duas companheiras de viagem, vejo atarem as nossas mochilas ao tejadilo do tuk tuk trepidante que nos levará, por fim, ao centro de Luang Prabang.
A tarde encaminha-se para o lusco-fusco e neste fim de dia lento vão desfilando para nós caminhos de terra batida, casas simples e os primeiros sinais de um país bem diferente da Tailândia que acabámos de deixar. A paisagem arrasta-se, horizontal, o tempo aquieta-se.
Entrar no Laos de barco é entrar de forma oblíqua, quase sem notar. De repente uma pessoa acorda e está de pés enterrados no coração de algo novo. Só então se dá conta de que, de mansinho, ao ritmo das águas calmas do Mekong, o tornado de uma nova fronteira passou e varreu consigo o familiar.
We're not in Kansas anymore, sussurou, inesperada, uma pequena Dorothy dentro de mim. E assim que o disse, ela soube que isso era bom.
Fiquei cheia de curiosidade! E a imaginar sapatos vermelhos a subir veredas enlameadas :)
ResponderEliminarJoana, muito obrigada pela visita e pela mensagem! Os sapatos têm-se fartado de andar na lama e na poeira, tanto que certos dias até ficam mesmo vermelhos! :) Um beijinho
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