quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma bicicleta em Dali - Parte I

Junto ao lago
Tempo. Deixar correr as horas em silêncio, sob um sol que cega e aconchega em partes iguais. Só o corpo, com o seu esforço de músculos empenhados, dá a medida do tempo que passa, enquanto voamos felizes nas asas de uma bicicleta. 

À esquerda, campos verdejantes, castanhos onde a terra ainda não foi lavrada, polvilhados por figurinhas humanas que espalham sementes, revolvem a terra e carregam às costas o produto do seu trabalho, em cestos de verga compridos. À direita, o lago Er Hai, ora declarado, ora escondido por trás de árvores, mas a cada passo suave e brilhante como um espelho. Por vezes avista-se um barquinho à pesca. A dado passo, surge no meio do verde um pintor de cavalete montado, abrigado do sol por um chapéu de palha cónico. E em pano de fundo para tudo isso, montanhas sobrepostas reflectem no seu enorme corpo o azul do céu e a vaga neblina da manhã.

O majestoso Er Hai
Pedalando, uma pessoa vai entrando e saindo de pequenas aldeias à beira lago, onde incessantes construções denunciam a marcha do tempo. Algumas pouco mais são que lugarejos, amontoados de três ou quatro casas rodeados de terra, outras estendem-se para lá do que a vista alcança.

Numa delas, descansa uma embarcação puxada para terra, servindo de poleiro a pássaros. São os mesmos pássaros que nas aldeias da região os habitantes treinam para a pesca a duas mãos e um bico. Não tive ainda a possibilidade de assistir a esse espetáculo invulgar de cooperação entre homem e pássaro, mas no Hostel onde estou alojada um grande placard na zona comum anuncia, entre outros, um tour dedicado ao fenómeno.

Montanha até perder de vista
Por mim, gosto de organizar os meus próprios passeios. Hoje levantei-me cedo e depois de uma rápida passagem pelo guichet onde se vendem os bilhetes de comboio, entrei na Cidade Velha pelo portão sul, em busca de uma bicicleta para alugar. 

Dali é actualmente uma cidade dividida: a Cidade Velha, que se estende em infinitos cruzamentos de ruelas pejadadas de lojas e restaurantes e alinhadas entre quatro portões designados pelos pontos cardeais; e Nova Dali, a meia hora de distância, cheia de avenidas e prédios, e que a maioria dos turistas apenas visita na hora de ir para a estação de comboios ou autocarros.

Na Cidade Velha, fazendo caminho por entre uma aprazível mistura de turistas e locais, rapidamente encontro uma bicicleta por 15 yuan ao dia, que é qualquer coisa como 2 euros - uma autêntica pechinca, portanto, mas perfeitamente em linha com os preços que se praticam por aqui.

Um negócio abundante, em Dali
Parto um pouco sem destino, ou antes, com o vago propósito de, permitindo as pernas, chegar à cidade de Xizhou, famosa pela sua arquitectura Bai e pelo singular método de pesca de que acima falei. 

A meio caminho acabo por encontrar caras conhecidas. Um casal holandês alojado no mesmo Hostel que eu decidiu fazer hoje o mesmo percurso. Pedalamos juntos à beira lago e após três horas e meia desde a saída de Dali, damo-nos por vencidos: parece impossível encontrar Xizhou. Disseram-nos primeiro que tínhamos ido demasiado longe, depois, que tínhamos voltado demasiado para trás, mas fossemos por onde fossemos, o alvo parecia mais esquivo que nunca.

Regressámos a Dali, pois, e eu, que não tenho o hábito holandês de me deslocar regularmente em duas rodas, fazia da força de vontade combustível para as pernas, que reclamavam do esforço. Chegámos pelas quatro e meia, seis horas e picos depois da minha partida, e foi já de bicicleta na mão, vagarosamente, que subi a rua em direcção à loja onde deveria entregar a minha companheira de jornada.

2 comentários:

  1. olá. as tuas fotografias são lindas. é bestial ler as descrições,ao mesmo tempo que se roda a cabeça para ´ver´a descrição!-já vi as fotos todas,li tudo,mas vim cá atrás às bicicletas. adorei a ideia de alugares uma para ires passear. adorei ainda mais teres encontrado e continuado o passeio os outros dois turistas! beij tia

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    1. Tia, este passeio de bicicleta foi uma das coisas mais deliciosas que fiz até aqui! Um beijinho e obrigada pela visita

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