Basta uma pesquisa no Yahoo (por cá, o Google funciona com demasiados soluços) e fica-se de queixo caído. Lagos de um turquesa tão intenso que juraríamos que alguém se entreteve a derramar-lhes dentro baldes de tinta, cascatas brancas de espuma, arvoredo rendilhado, folhagens de Outono a atirarem os seus vermelhos contra a superfície silenciosa das águas, cores, cores e mais cores. Assim é o cartão de visita de Jiuzhaigou, um parque natural no norte da província de Sichuan, que a cumular a tudo isto conta ainda com a classificação de património mundial da UNESCO.
E porém, estive quase, quase para não ir. Desencorajada pelo preço invulgarmente elevado desta pequena aventura, pela perspectiva de duas viagens de autocarro em três dias, dez horas cada uma, e pelas histórias que ouvira quanto ao número disparatado de turistas acotovelando-se para mais uma fotografia, estava inclinada a entregar-me à preguiça e avançar para outras paragens.
Foi a promessa de companhia para o passeio que me fez mudar de ideias. Isso e a ideia de que mais vale o arrependimento pelo que se fez do que pela oportunidade perdida. No fim de contas, a promessa de companhia saiu gorada, pelo que me agarrrei com unhas e dentes ao segundo motivo e parti, com uma pequena mochila apenas, à aventura.
A viagem em direcção a Jiuzhaigou foi passada a gerir a fome à custa de fruta, bolachas e frutos secos e a dividir o meu assento com o parceiro do lado, que ocupava com calma olímpica assento e meio e de vez em quando me lançava uns sorrisos e umas palavras em chinês, seguramente à laia de compensação.
No fim do trajecto, esperava-me uma cidade fria, tipíca das zonas de altitude, e um hostel no mínimo peculiar. Fiz o check-in - duas vezes, porque o primeiro quarto que me destinaram afinal estava cheio - e após uma sopa wonton no restaurante da porta ao lado decidi dar por terminado o dia.
Encolhida debaixo de mantas grossas e vestida da cabeça aos pés, contemplei a extensão dos meus aposentos. Um quarto partilhado com outros quatro viajantes, construído no quinto andar do hostel, vulgo terraço, com o chão em cimento, mobília espartana e acesso a casa de banho e chuveiros uns metros mais adiante, no dito terraço.
Apesar do frio siberiano que fazia lá fora, enfrentei o terraço e fui a banhos. Depois disto, restava-me dormir e esperar pelo dia seguinte, confiando na justa recompensa que me tinha sido prometida pelos meus esforços.
A recompensa chegou. Jiuzhaigou é o que prometem as fotografias e muito mais. Seguindo os conselhos que, no hostel anterior, me tinham sido dados por vários viajantes, estava a comprar o bilhete perto das sete e mal entrei no parque, disparei para dentro do primeiro autocarro que vi, ao redor do qual se concentrava já uma pequena multidão.
Após duas semanas e meia de China, uma pessoa deixa de se intimidar com os ajuntamentos. Empurrei, pois, como os demais, e dentro de nada estávamos a caminho de uma das pontas do parque, um recinto em forma de y atravessado a pé ou com a ajuda de autocarros hop on / hop off.
Decidida a optimizar o meu único dia no parque, caminhei cerca de dez horas e posso dizer que quase nenhum minuto passou sem que encontrasse motivo para abrir a boca de espanto. Partilho convosco alguns retratos do meu dia, certa de que outras imagens mereceriam igualmente estar aqui:
Apesar dos avisos quanto à sobrelotação do parque, e mesmo sendo fim-de-semana, encontrei muitos trilhos calmos por entre percursos mais agitados, e recordo-me em particular de um trajecto junto ao Lago Espelho, em que caminhei por uns minutos no absoluto silêncio de um trilho deserto. Um tipo de isolamento a que já não estou habituada, e foi vencendo um certo alarme subconsciente que me decidi a seguir assim, sem gente à vista, apreciando o momento invulgar.
Apesar dos avisos quanto à sobrelotação do parque, e mesmo sendo fim-de-semana, encontrei muitos trilhos calmos por entre percursos mais agitados, e recordo-me em particular de um trajecto junto ao Lago Espelho, em que caminhei por uns minutos no absoluto silêncio de um trilho deserto. Um tipo de isolamento a que já não estou habituada, e foi vencendo um certo alarme subconsciente que me decidi a seguir assim, sem gente à vista, apreciando o momento invulgar.
Escrevo estas linhas no autocarro de regresso. O meu corpo experimenta dores e desconfortos vários e faz-me dormir várias horas para lhes escapar. Mas é nos intervalos de vigília que enfrento a primeira e mais fundamental de todas as aventuras na China. Perdoem-me a incursão algo escatológica, mas é impossível não dedicar umas palavras a esse teste à resistência do viajante que é a utilização de uma casa de banho pública nas áreas de serviço em que param os autocarros. Nada de sanitas, nada de portas, apenas uns curtíssimos meios muros a servir de divisória. Vocês imaginam o resto.
Por vezes seria fácil uma pessoa entregar-se ao negativo. Por quanta beleza que se veja, por quantas maravilhas que nos sejam dadas a experimentar, há sempre espaço para uma pessoa lamentar a falta do aconchego e do familiar. Enquanto vejo passar cidades e montanhas do outro lado do vidro, ocorre-me que no fim de contas é a mente, e não o corpo, que decide que sim, hoje foi um dia bom.








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