segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Bem-vinda à China - Parte II

Não sei dizer bem o que esperava, mas sob uma capa de caracteres incompreensíveis e paladares pouco habituais, há um não-sei-quê subrepticiamente ocidentalizado em Pequim que me surpreendeu assim que dei o primeiro passo na capital.

Talvez seja apanágio de todas as grandes cidades o parecerem-se crescentemente umas com as outras. Se assim é, Pequim não escapa à regra. Pequim sabe que é, para muitos viajantes, o portão de entrada para a China, e assume esse papel com gosto, facilitando-lhes a vida com pormenores tão importantes como uma rede de metro inteiramente sinalizada em inglês.

Foi talvez por isso que a mais genuína sensação de vitória me invadiu no dia em que conquistei o meu lugar entre os passageiros de autocarro, encaixada no espaço reduzidíssimo entre dois chineses e sem um único turista à vista.

Do mesmo modo, foi toda ufana que atravessei pela primeira vez a estrada, arriscando enfiar-me por entre a corrente de trânsito contínuo que não fazia tenção de parar. Seguindo o exemplo local, esperei por uma pequena aberta e fiz caminho a par e passo com outros três peões que enfrentavam o mesmo dilema.

Se momentos houve em que me senti um pouco menos estrangeira, foram seguramente estes dois.

Mas nada de mal-entendidos: Pequim oferece muitas outras oportunidade para uma pessoa sentir a diferença de latitudes.

Uma visita ao supermercado ou loja de conveniência mais próxima revela a ponta do icebergue da diferença deste lugar. Para lá dos pouco saudáveis mas inescapáveis noodles instantâneos, que já mais ou menos fazem parte do imaginário colectivo, é difícil adivinhar qual seja o conteúdo de todas aquelas embalagens de snacks e fast food, com cores e texturas absolutamente distintos dos que estamos habituados a comprar, por exemplo, para uma viagem de camioneta.

E depois há o mover-se do ponto A para o ponto B. O tempo que se leva a chegar a qualquer lado é sempre o dobro do normal, quer porque olhando para o mapa é fácil subestimar as distâncias, quer porque uma pessoa se perde várias vezes. Caso em que se inicia a segunda aventura, a saber, a de pedir a ajuda de algum habitante, numa mescla de inglês, mandarim e muitos, muitos gestos, e rezar para que ele ou ela conheça, no meio de uma cidade tão gigante, o ponto específico de que estamos à procura.

A grande sorte é esta: o povo chinês, regra geral, não se faz rogado em ajudar. Creio que foram raríssimas as ocasiões em que as minhas tentativas de interacção ou pedidos de ajuda não receberam por resposta um sorriso e um esforço para lá do que seria exigível para me devolver ao caminho certo. Desde abandonarem o seu próprio trajecto para descobrirem o meu, até providenciarem a nota de 1 yuan em falta para pagar o autocarro em que não há troco, passando ainda por me ajudarem a escolher o único prato sem picante num menu inteiramente em chinês, oferecendo-me depois a sua companhia para o almoço e um passeio no parque, isto e mais fizeram por mim completos desconhecidos.

No fim de contas, creio que se alguma fronteira pode separar deste povo, essa fronteira não será tanto erguida pela língua distinta quanto pela sua timidez. Meros dias volvidos sobre a minha chegada, e logo se foi definindo em mim a impressão de que se nalguma ocasião me viraram a cara e se escusaram ao contacto, foi sobretudo à conta da vergonha de arriscarem uma resposta errada ou umas palavras num idioma que não dominam.

E ainda assim, apesar de muito tímidos, sente-se neste povo, distintamente, o desejo de contacto e a correspondente felicidade quando, pela nossa parte, mesmo que apenas por gestos, ou com duas ou três palavras de pronúncia estropiada, tentamos corresponder. 

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