segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Bem-vinda à China - Parte I

O comboio arrasta a paisagem para fora do vidro, mas no escuro da noite é difícil dizer se é campo, casas ou gente o que continuamente se some da moldura. Só as luzes denunciam as formas ocultas e toda uma vida que se estende para lá deste vagão-cama. Estendida no beliche de baixo, arrumada, com tudo o que tenho, no canto esquerdo de um compartimento soft sleeper do comboio nocturno entre Pequim e Xian, aproveito os momentos a sós para deixar correr as ideias. O grupo de três com quem partilharei o espaço durante as próximas treze horas aninha-se, por enquanto, no "quarto" do lado, dividindo um jantar de pato com o resto das pessoas com que viaja.

À chegada trocámos umas breves palavras de reconhecimento, tendo aí ficado estabelecido, tanto quanto permitiram as minhas míseras habilidades em mandarim, que eu vinha de Portugal, de que eles conheciam Figo e mais alguns jogadores de futebol, e que eles vinham de Pequim, e era tudo. Pouco depois, já em inglês, que o homem revelou saber falar um pouco e as duas mulheres nada, foi-me explicado que iam por motivos profissionais, trabalhadores de uma empresa a fiscalizar projectos de construção.

Ele é um rapaz novo, face redonda, aberta, marcada apenas ao de leve por um par de óculos de meio-aro, cabelo fino e escuro como é hábito ver-se por estas paragens, roupa composta, camisa aos quadrados, calça escura, sapatos entretanto escondidos debaixo do beliche, preteridos por um par de chinelos que os caminhos-de-ferro chineses gentilmente disponibilizam aos viajantes desta classe.

Regressado do jantar, ensina-me algumas expressões em mandarim, confidencia-me o seu desejo de visitar Portugal, país nativo dos seus ídolos futebolísticos, e espanta-se com a minha condição de viajante solitária, abandonada, quem sabe, pelo seu grupo, que aqui na China, por lugar comum que seja dizê-lo, é verdadeiramente a essência da maioria das coisas.

Mal saída do avião, uma pessoa logo se dá conta da lógica dos grandes números que governa este país, enquanto se espreme e acotovela no comboio que liga o terminal de chegada ao de recolha das malas.

Pequim, como grande cidade que é, dizem-me que a rondar os 20 milhões de habitantes, move-se como uma gigantesca vaga, e seja no quotidiano do trabalhador ou no do turista, há que descobrir bem rápido a arte de avançar por entre a sua rebentação. Com o tempo, uma pessoa aprende a não levar a mal os empurrões e o hábito de fazer soar buzinas e campainhas a despropósito: tudo se aceita, como parte integrante do que faz mover este oceano de gente.

Fim de tarde à beira do lago, no Xicheng
O bairro onde fiquei alojada na capital, o Xicheng, retém o pitoresco da velha cidade, recortado por lagos em torno dos quais serpenteiam centenas de hutongs - vielas tradicionais chinesas onde se alinham lojas, oficinas e, atrás de portas por vezes entreabertas, casas e pátios privados.

Vencida a desorientação inicial, nada mais delicioso existe do que uma pessoa perder-se pelos caminhos adentro, ver como se passeia, o que se come, pressentir que conversa troca a juventude local num fim de tarde de sábado, que o pôr do sol precoce faz parecer noite cerrada. É assim que me dou conta da predilecção dos chineses, ou pelo menos dos de Pequim, por tudo o que venha em forma de espetada, ou de como se deliciam com frituras várias a todas as horas do dia. As criança, em especial, gravitam para a doçura de fruta caramelizada, no mais das vezes um fruto com a forma de pequeníssimas maçãs, perfeitamente alinhadas num espeto de pau. E um pouco por toda a parte há quem beba iogurte tradicional de omnipresentes frascos brancos, com uma palhinha a furar a cobertura de papel azul e branco.

Uma loja num hutong
Quanto a este último, já não sei dizer se é um costume local ou uma moda turística, posto que turistas e locais se distinguem muitas vezes apenas pela presença ou ausência de uma câmara ao pescoço. Muito pouco surpreendentemente, num país de largos milhões, os turistas ocidentais que encontro não chegam, em número, aos calcanhares dos visitantes de outras partes da China ou da Ásia.

Enquanto deambulo pelas ruas, as histórias, costumes e idiossincrasias locais revelam-se-me, em pequenos flashes. Junto ao lago, noivos tiram fotografias para o álbum de casamento, numa sessão fotográfica que, por estas bandas, antecede o próprio evento, às vezes por vários meses. Homens pedalam nos seus riquexós, procurando clientes para um tour pela zona histórica. Há quem medite, ou descanse simplesmente, observando o dourado do sol do fim de tarde pousar nas águas.

Registando a feliz - e futura - ocasião
Tive a sorte de ver Pequim, pela primeira vez, filtrada pelos olhos doces destas ruas tradicionais, ainda que hoje em dia as mais populares de entre elas se tenham tornado inegavelmente turísticas e atulhadas. Mas para lá delas, avenidas existem, e praças, e grandes espaços, dentro dos quais a cidade se torna imensa, árida, impessoal. Uma cidade de milhões de corpos chocando uns com os outros e de milhares de olhares desencontrados. Mas no interior dos hutongs, Pequim recupera a sua dimensão humana, mensurável, passível de ser vivida - e sentida.

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