À chegada trocámos umas breves palavras de reconhecimento, tendo aí ficado estabelecido, tanto quanto permitiram as minhas míseras habilidades em mandarim, que eu vinha de Portugal, de que eles conheciam Figo e mais alguns jogadores de futebol, e que eles vinham de Pequim, e era tudo. Pouco depois, já em inglês, que o homem revelou saber falar um pouco e as duas mulheres nada, foi-me explicado que iam por motivos profissionais, trabalhadores de uma empresa a fiscalizar projectos de construção.
Ele é um rapaz novo, face redonda, aberta, marcada apenas ao de leve por um par de óculos de meio-aro, cabelo fino e escuro como é hábito ver-se por estas paragens, roupa composta, camisa aos quadrados, calça escura, sapatos entretanto escondidos debaixo do beliche, preteridos por um par de chinelos que os caminhos-de-ferro chineses gentilmente disponibilizam aos viajantes desta classe.
Regressado do jantar, ensina-me algumas expressões em mandarim, confidencia-me o seu desejo de visitar Portugal, país nativo dos seus ídolos futebolísticos, e espanta-se com a minha condição de viajante solitária, abandonada, quem sabe, pelo seu grupo, que aqui na China, por lugar comum que seja dizê-lo, é verdadeiramente a essência da maioria das coisas.
Mal saída do avião, uma pessoa logo se dá conta da lógica dos grandes números que governa este país, enquanto se espreme e acotovela no comboio que liga o terminal de chegada ao de recolha das malas.
Pequim, como grande cidade que é, dizem-me que a rondar os 20 milhões de habitantes, move-se como uma gigantesca vaga, e seja no quotidiano do trabalhador ou no do turista, há que descobrir bem rápido a arte de avançar por entre a sua rebentação. Com o tempo, uma pessoa aprende a não levar a mal os empurrões e o hábito de fazer soar buzinas e campainhas a despropósito: tudo se aceita, como parte integrante do que faz mover este oceano de gente.
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| Fim de tarde à beira do lago, no Xicheng |
Vencida a desorientação inicial, nada mais delicioso existe do que uma pessoa perder-se pelos caminhos adentro, ver como se passeia, o que se come, pressentir que conversa troca a juventude local num fim de tarde de sábado, que o pôr do sol precoce faz parecer noite cerrada. É assim que me dou conta da predilecção dos chineses, ou pelo menos dos de Pequim, por tudo o que venha em forma de espetada, ou de como se deliciam com frituras várias a todas as horas do dia. As criança, em especial, gravitam para a doçura de fruta caramelizada, no mais das vezes um fruto com a forma de pequeníssimas maçãs, perfeitamente alinhadas num espeto de pau. E um pouco por toda a parte há quem beba iogurte tradicional de omnipresentes frascos brancos, com uma palhinha a furar a cobertura de papel azul e branco.
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| Uma loja num hutong |
Enquanto deambulo pelas ruas, as histórias, costumes e idiossincrasias locais revelam-se-me, em pequenos flashes. Junto ao lago, noivos tiram fotografias para o álbum de casamento, numa sessão fotográfica que, por estas bandas, antecede o próprio evento, às vezes por vários meses. Homens pedalam nos seus riquexós, procurando clientes para um tour pela zona histórica. Há quem medite, ou descanse simplesmente, observando o dourado do sol do fim de tarde pousar nas águas.
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| Registando a feliz - e futura - ocasião |



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