segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Gigantes na bruma

A caminho do topo
Imaginem-se no alto e depois ainda mais alto do que isso. As nuvens abraçam-vos com o seu hálito frio mas o suor empapa-vos a roupa e o cabelo, ao mesmo tempo que qualquer coisa gelatinosa substitui as vossas pernas e o bater desenfreado de uma bomba-relógio pulsa onde antes pulsava o vosso coração. Três coisas apenas vos fazem continuar: a fantástica companhia, que antecipou a sua ida para que vocês pudessem ir também; o vosso amor próprio, que nem mortos vos deixaria ficar pelo caminho; e a vontade insuprimível de chegar ao topo. 

E o que há no topo? A certeza da missão cumprida. Ou talvez não. 

Naquele dia, para mim, a missão só se cumpriu na base, depois de enfrentar em dobro cada um dos tortuosos degraus que ligam o sopé da montanha Hua Shan, uma das cinco montanhas sagradas do Taoísmo, ao seu pico norte, confiando a vida, por vezes, a inquietantes correntes que se oferecem como ponto de apoio quando a subida se torna demasiado íngreme.

E enquanto o esforço me fazia arfar e pedia pequenas pausas para uma respiração mais funda, eu observava os anciães da região subirem e descerem degraus com uma ligeireza que desmentia os pesados fardos que levavam às costas, seguramente provisões para abastecerem as lojinhas que, espontâneas como cogumelos, despontam um pouco por toda a parte a caminho do topo. Qual acrobatas, as suas esguias figuras equilibravam às costas paus com fardos em cada ponta e desenhavam graciosas elipses sempre que as escadas mudavam o sentido da marcha.

Numa dessas pausas passa por nós um chinês, claramente determinado mas sem a mesma ligeireza dos vendedores, e num breve momento, observando o suor que nos tomava de assalto, confessou-nos que já por várias vezes viera subir esta montanha, porque o desafio lhe reforçava a coragem e a força de vontade.

Por esta altura, a minha força de vontade caminhava uns metros abaixo da minha cabeca, o que é dizer qualquer coisa quando parte do percurso o fazemos praticamente de gatas.

E porém, persisti.

No topo!
13km depois, uma t-shirt directa para a lavagem, pernas em modo de emergência, que é aquele modo em que tudo treme e de repente vocês se vêem sentados no chão sem saberem muito bem porquê, e ainda assim o que predomina é uma fanfarra inaudível dentro do peito, que apenas sabe cantar: EU VENCI UMA MONTANHA!

Apesar do nevoeiro cerrado que vos fez subir às cegas quase todo o tempo, os deuses quiseram que na recta final vocês e os vossos dois companheiros de percurso tivessem por troféu uma aberta crescente, por onde o sol do fim do dia veio tornar visíveis e douradas as montanhas que durante horas vos vigiaram a subida, quais gigantes inertes e silenciosos.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo teu feito, Adriana. Aí, mostraste-te como és, uma verdadeira climber. O mesmo esforço verdadeiro como enfrentas os factos da vida. Bjs e que continues a ter uma excelente vaigem, com muitas surpresas agradáveis.

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    1. Maria, que bom receber a tua visita! E obrigada pelo comentário, também! Espero que esteja tudo bem contigo :-) Um beijinho

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  2. Acabei de seguir o teu trajecto. O dos lugares e o das emoções.
    Desejo que tudo continue a deslumbrar-te, especialmente na Alma.
    Um beijo.
    Maria José Matos

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    1. Maria José, muito obrigada! Alegro-me muito com esta visita, especialmente hoje! Desejo apenas o melhor possível para estes dias. Um beijinho

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