terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma pausa inesperada em Chiang Khong

Numa pousada à beira do Mekong gela-se o corpo enquanto a chuva pontapeia o telhado. Estou sentada num promontório de madeira aberto a toda a volta, com cerca de uma dezena de mesas, algumas das quais ocupadas por outros hóspedes igualmente irregelados. O casal de portugueses que conheci esta tarde debandou em busca de refúgio no conforto do quarto. E eu, debaixo do meu insubstituível polar, janto sopa de glass noodles e tofu, como parece exigir este Inverno súbito e bizarro.

Há uma inércia no ar, uma preguiça de músculos relutantes em sair debaixo da roupa ou das cobertas que se arrastaram do quarto, e mesmo as conversas resistem ao seu normal fluir, empedernidas pelo frio. Nisto, alguém decide começar uma fogueira e a disposição muda. Cadeiras alinham-se em torno das chamas, interpelações cruzam-se, vozes crepitam de um lado e outro do círculo, plenas de histórias e partilha. Amizades de circunstância, tão instantâneas e transitórias como a nossa presença neste lugar.

Cheguei a Chiang Khong no autocarro das duas, com a mochila sobre as costas e um céu negro sobre a cabeça. Nuvens cinzentas que em breve se desfizeram nesta chuva que enche o escuro de ruído.

Estamos no começo do limbo, a última porta da Tailândia por onde passam os viajantes rumando em direcção ao norte do Laos. O trilho é conhecido e bem marcado. Chegada a Chiang Khong no autocarro da tarde, dormida numa pousada local e partida para a fronteira na manhã seguinte, com o fito último de apanhar o slow boat de dois dias para Luang Prabang.

Os meus planos imediatos são outros, porém. Venho decidida a ficar um dia mais, poisar malas, lavar roupa, enviar correio, organizar fotografias e reactivar o blogue, coisas pequenas e grandes de que se enchem os interlúdios desta vida feita a vogar de um ponto ao outro do mapa. Mas por agora, termino simplesmente a minha sopa e fico à conversa junto ao fogo, até o escuro, o frio e o prosaico cansaço me empurrarem para a cama.

Na primeira manhã, pelas seis, o raiar da aurora encontra-me desperta e atenta, aninhada na varanda do meu bungalow com uma manta até ao nariz e os olhos postos no horizonte laranja e nas águas terrosas do rio. Um hora mais tarde transito para o espaço comum no andar de cima, onde o dia começa a sacudir o sono com um pequeno almoço de torradas, ovos, chá e fruta.

Depois disso, trato dos deveres sem pressa nem hora, parando aqui e ali sempre que uma conversa desponta. Descubro a lavandaria local, com os mesmos preços indindescritivelmente baratos de sempre, passo pelo 7-Eleven, a ubíqua cadeia de lojas de conveniência nascida nos Estados Unidos e dominante por estas paragens, encontro os correios e a rua principal, paro, no meio disto, num carrinho de rua onde se vende chá tailandês com leite. Desfio, enfim, o meu novelo de deveres e prazeres, ao ritmo e à medida da minha vontade.

Com o correr das horas vou-me acomodando ao espaço e ao tempo deste lugar, uma cidade onde nada reclama esforço ou atenção, nada exige ser feito, nada exige ser visto, onde sem culpa recalcada uma pessoa pode dedicar as suas horas a contar nuvens e deixar correr o rio.

O meu dia de repouso vai-se convertendo em vários. Cada noite, o espaço enche-se e a pousada ganha vida; cada manhã, uma carrinha passa a levar o grupo de viajantes para a fronteira e o silêncio retoma o seu lugar. Ou quase. Um diminuto grupo de habituais vai-se mantendo de dia para dia, acrescido, de quando em quando, por uma cara nova. Habituais como o A., que aos oitenta e três anos leva sessenta e oito de viagem atrás de si, ou o J., que com vinte se encontra nos primeiros dias da sua viagem a solo de vários meses.

O casal que gere o espaço aparece a intervalos regulares, amigavel, prestável, acolhedor, decidido a transformar uma pousada como tantas outras num lar, mesmo que temporário. Talvez seja isso que ressoa em nós, os que ficamos a cada manhã, adiando por umas horas mais a nossa própria vez de embarcar.

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