Se regras existem na cartilha do visitante de Banguecoque, entre elas está seguramente a obrigatoriedade de uma peregrinação à afamada e historicamente significativa tríade de templos, Wat Phra Kaew, repositório do Buda de Esmeralda e vizinho imediato do Grande Palácio, Wat Pho, onde o Buda permanece para sempre reclinado, e Wat Arun, o templo da madrugada.
Reluzindo ao sol como satélites terrestres da sua luz, estes complexos imponentes exibem com orgulho os seus dourados e cores garridas, os seus alinhamentos de Budas impávidos, as suas torres dirigidas ao céu, as suas paredes revestidas de murais de velha porcelana chinesa quebrada e reaproveitada para decoração, a sua estatuária peculiar e variada, os seus corredores frescos e escadarias intermináveis, cada qual recorrendo a uma surpreendente estética de opulência para exprimir na terra a majestade dos propósitos espirituais de despojamento e iluminação budistas.
Entrando e saindo de cada um destes lugares, uma pessoa rapidamente lhes descobre as regras essenciais. Nada de sapatos, que devem ser deixados à porta, como sucede, aliás, na maioria das casas e lojas tailandesas. Nada de ombros descobertos, decotes, calções ou saias acima do joelho. Nada de apontar os dedos dos pés ao Buda: devem estar recolhidos para o lado ou para trás.
Em cada canto, os monges aparecem em visões de laranja e eu, como mulher, devo ter o cuidado suplementar de não ficar a sós com eles, não lhes tocar, nem lhes entregar nada para as mãos directamente.
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| Wat Phra Kaew |
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Em Banguecoque, os encontros com a A. e o R. tornam-se o meu pequeno ritual diário. Os nossos planos para o dia-a-dia nem sempre coincidem, mas ao cair da noite é quase infalível a reunião em torno de uma refeição partilhada.
Frequentamos assiduamente um pequeno restaurante a dois passos do meu hostel, onde, além de comida, se faz magia. Alguns truques são engraçados, outros magnificamente bons. A moeda que penetra o fundo de uma garrafa de vidro. O pedaço de carta rasgado à nossa frente, que reaparece cravado dentro de um gomo de tomate cortado diante dos nossos olhos. Impossível! Viste aquilo?! Como é que... Mas é mesmo assim. Não saber faz parte do encanto, parte da diversão. É o que ele nos diz, o gerente, o mágico de serviço, o perfeito entertainer, sempre que tentamos levantar o véu que cobre o mistério.
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Aterra-se na Ásia com medo de quase tudo. Da água, da comida de rua, da fruta sem casca, dos legumes crus, das bebidas com gelo, dos gelados... Nos primeiros dias, caminha-se pelas ruas e a cada canto recordam-se os alertas da consulta do viajante e as histórias de terror lidas online.
Depois, um dia, o corpo avisa-nos de que não vai ficar um ano a bananas e sopas fervidas. Depois, um dia, alguém nos oferece uma bebida gelada que não podemos, sob pena de descortesia, recusar. Depois, um dia, a gula e o calor pedem um gelado.
E com o tempo as regras vão cedendo, rachando aqui e ali como madeira velha, até a casa das nossas cautelas alimentares ruir por completo. Ou quase. Ficam os cuidados com a água e umas coisas mais, mas passa a ser um teste de instinto que é aplicado a tudo o resto. Um teste do tipo, sinto que é fresco ou não. Acho que vai correr mal ou não. Muito pouco científico, concedo, mas do mais eficaz que existe.
Na China, só lá para meio do caminho é que comecei a aligeirar os medos e a perceber que, para além de algum bom senso importante, o mais eram exageros. Mas Banguecoque foi o sítio onde perdi de vez a maioria das teimas e receios em matéria de alimentação. E ainda bem, porque se há coisa que aqui vale a pena, é comer de tudo um pouco.
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| Pequeno almoço: mini-crepes com recheio de côco e milho |
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| A delícia da jaca |
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| Gelado de côco servido na casca do próprio fruto |
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| Pad Thai - um de muitos! |












cá eu, comia tudo, se lhe pudesse chegar. que coisas deliciosas!...
ResponderEliminarqual medo, qual o quê!
e pronto, agora estou esfomeada.
e não dá para ir jantar... outra vez?
Pois é Tia, és mais brava do que eu era, mas felizmente aprendi depressa! :) Um beijinho
EliminarPara mim a boa descoberta foi o sabor da sopa, misturado com o gengibre. Um beijinho, com votos de que continues a colecionar experiencias gastronómicas tao positivas como estas!
ResponderEliminarAssim tem sido, Mãe! Um beijinho
EliminarAssim tem sido, Mãe! Um beijinho
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