sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Surin em família

With much gratitude to J. and her family, who took me into their home with great generosity, warmth and kindness

Em Surin acabei de lavar as minhas mágoas com Banguecoque. Foi aqui que vim descobrir a outra Tailândia, a tal dos sorrisos, dos braços abertos, da grande generosidade.

Estamos no nordeste do país, na região do Isan. Li algures que menos de dois por cento dos turistas na Tailândia ruma a estas paragens. Não sei se é verdade, mas qualquer que seja o número, não registo mais que uma dezena de rostos ocidentais nos dias que aqui passo.

Passeando por Surin e arredores, vou anotando as diferenças. As estradas desimpedem-se e fazem-se ladear de paisagem agrícolas ou, no centro das cidades, de pequeno e médio comércio local. Ruínas e templos surgem mais espaçados entre si. O inglês reduz notoriamente a sua presença. Espaços e negócios destinados a estrangeiros deixam de sobressair. Na região do Isan, como talvez em poucos lugares na Tailândia, pressente-se um universo intensamente local, onde a indústria turística não se converteu ainda na medida principal de todas as coisas.

Foi em busca desse caminho menos percorrido que planeei a minha vinda ao nordeste tailandês. Valeu-me de encorajamento a grande sorte de me apresentarem a J., uma jovem tailandesa, amiga de uma amiga, a residir em Surin. Ela e a sua família acolheram-me sem reservas. Receberam-me magnificamente no seu lar, deram-me a conhecer a deliciosa comida local, os pontos de interesse da região, as rotinas e hábitos de cada lugar, e sobretudo - o que mais me tocou - convidaram-me a tomar parte do seu quotidiano familiar, partilhando comigo os seus dias. Gentilezas várias, que não esquecerei, e que me ajudaram a espreitar para lá do véu sob o qual um turista inevitavelmente experiencia uma terra.

O passeio de quatro dias começou neste templo, com o primeiro de inúmeros degraus alinhados em direcção ao Buda. Seguindo a tradição, entretive-me a fazer soar cada um dos sinos a caminho do topo, e depois também ao descer. No cimo, esperava-me como recompensa o olhar aprovador de dois Budas.




Noutro templo encontrei dezenas de caras sorridentes e olhos semi-cerrados, quem sabe se em meditação colectiva sobre a natuteza da iluminação. E logo em seguida encontrei a sua antítese, sob a forma de peixes vorazes e muito pouco inclinados à serenidade.



Noutro local, e no fim de mais umas escadas, mais um Buda.


Uma das visitas mais bonitas do meu curto périplo pelo Isan foi a que fiz às ruínas Khmers de Phanom Rung, sugestivamente situadas no topo de um vulcão extinto e envoltas em lindas vistas sobre os povoados mais abaixo.




O momento de glória de Surin tem lugar anualmente, num fim-de-semana em Novembro, durante o famoso festival de elefantes (elephant round-up). Centena destes gentis paquidermes são trazidos para a cidade pelos mahouts (treinadores), exibindo perante o público as suas proezas em jogos e espectáculos vários.

Fora desse período, e seguindo uma tradição com centenas de anos, é na aldeia Ban Tha Klang, a cerca de 60 km da cidade, que continuam a albergar-se os elefantes da região, com os respectivos mahouts e suas famílias.

Na aldeia é possível visitar o Elephant Study Center, observar os elefantes nas suas rotinas diárias e assistir a espectáculos em  que os mesmos realizam proezas como jogar futebol, pintar quadros ou "massajar" as costas de turistas voluntários. Durante o espectáculo são vendidos pedaços de bambu para dar de alimento às estrelas do show, alimento esse que trombas ávidas recolhem sem demora, no intervalo de cada número.

Visitei o local numa tarde quente, em busca de informação sobre o Surin Project, sobre o qual tinha lido na Internet. Desenvolvido pela Elephant Nature Foundation em colaboração com a Surin Provincial Administration Organization, este projecto procura fomentar em Ban Tha Klang melhores condições de vida para os elefantes e para os mahouts, evitando que por falta de recursos os animais fiquem acorrentados dias inteiros, sejam forçados a participar em mendicidade nas grandes cidades ou espectáculos de circo ou utilizados para as turísticas elephant rides.



Uma visita a uma cidade jamais fica completa sem um giro pelo respectivo mercado nocturno. No norte da Tailândia, os insectos são uma iguaria muito apreciada, e como tal não poderia faltar uma banquinha bem recheada deles.


Por fim, na aldeia Ban Tha Sawang, ouvi falar sobre o laborioso processo de trabalhar a seda.



Em breve chegou a hora das despedidas. Deixei Surin com um bilhete de comboio no bolso e a alma cheia. Quem sabe... talvez o futuro me reserve um reencontro com a J. e a sua acolhedora família. Talvez tenha, um dia, a oportunidade de retribuir as suas gentilezas, servindo eu de anfitriã em Portugal. Até lá, ficam-me as boas memórias e a gratidão.


2 comentários:

  1. Leio estas palavras gratas e lembro outras, a que foi dado o titulo muito simples de Elogio do lar. Lembro e não esqueço o dia em que passei a soleira da porta e presenciei a cena, tranquila como águas profundas. Saio daqui uma leitora feliz!

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    1. Obrigada por esta recordação, que me veio vivíssima ao espírito assim que li estas linhas! Um beijinho

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