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| Beleza e mistério no lago Hoan Kiem |
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Na noite da minha chegada não me apetecem grandes esforços. É por isso que, fiada nas indicações do hostel, abro caminho rápido por entre as ruas apinhadas da cidade velha, em busca daquelas que a simpática recepcionista assinalou com um círculo no mapa.
Não preciso de caminhar muito. Umas ruas abaixo, mesmo à esquina, vejo um mar de mesas e cadeiras baixas cheio de gente em alegre banzé, aquele banzé particular que se eleva acima do ruído geral que sempre paira nas ruas da Ásia e que indica a proximidade de comensais felizes atacando pratos e bebidas com gosto.
Olho em volta, meio desorientada, e lá vem o empregado sorridente trazer-me o menu inglês e apontar-me um lugarzinho acanhado numa das mesas corridas. Com cada passo para lá chegar, as minhas botas esmigalham ossos e outros restos inaproveitáveis que das mesas foram lançados directamente para o chão, sem pudor particular. Sento-me e peço um pho - essa sopa que é uma instituição sem par no Vietname - mas sem carne.
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| Delícias do mercado nocturno |
A meio caminho em direcção ao fundo da tigela, já estou em amena cavaqueira com uma rapariga obviamente estrangeira e de cabelo decididamente escuro, sentada do outro lado da mesa. Diz-me que é americana, estudante de jornalismo, e que está aqui "working on a story". Respondo-lhe que em todas as minhas viagens nunca tinha encontrado uma jornalista em missão. Não sei porquê, se é do ar da noite ou das memórias dos muitos filmes de acção e mistério passados na Ásia, mas sinto-me subitamente fiel depositária de uma informação vital e, claro está, secreta. Working on a story. A minha mente voa.
Terminamos o jantar com a descoberta de que ela reside numa das cidades por onde eu conto passar daqui a uns meses. Simpaticamente, deixa-me o contacto escrito num guardanapo, para o caso de me poder ajudar nalguma coisa. Depois despede-se e eu fico a rapar o fundo da tigela, devolvida ao mar anónimo de gente. Ao vê-la partir, sinto-me tentada a espreitar o outro lado do guardanapo, quase esperando encontrar aí as fatais palavras "queimar depois de ler".
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| Deambulando pelos jardins do Templo da Literatura |
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| Estelas doutorais |
No Museu das Mulheres, recentemente renovado, aprendo sobre as contribuições importantes das mulheres vietnamitas para a história e sociedade do seu país. Numa das salas mais pequenas passa um documentário sobre mulheres que, para escaparem à miséria, deixaram as suas terras-natais por trabalho a vender legumes, fruta, flores e outros artigos ruas das cidades. Descortina-se toda uma vida de dureza naqueles olhares, uma dureza que muitas vezes está já para lá das lágrimas.
Uma sala maior documenta os rituais típicos de cada grupo étnico no que respeita à vida familiar. Espantosos, alguns dos complexos cerimoniais de casamento seguidos, com regras estritas sobre a interacção entre as famílias dos noivos, as prendas a serem trocadas, o número de vezes que o casamento deve ser celebrado e até o local onde os noivos devem habitar ao longo do tempo. Noutra sala mais adiante, conta-se a história das guerras e o papel das mulheres em tempo de conflito. Um placard informa que, a dada altura, cerca de 60% das guerrilhas Vietcong eram compostas por mulheres. Venho a mastigar este facto no caminho de regresso, ordenando mentalmente ao céu cinzento que segure os seus pingos de chuva mais uma meia hora.
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| Arte e história no Museu das Artes |
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Paro junto a um expositor, atraída por baguetes, vegetais e fatias fininhas de qualquer coisa prensada que temo ser carne. Durante uns segundos fico ali a contemplar a ementa como se pudesse lê-la, aparentemente invisível para as empregadas que se atarefam lá dentro.
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| O convidativo expositor do restaurante Vu Canu |
Nisto oiço um inglês perfeito chamar por mim:
- São excelentes, devia experimentar!
Olho para o fundo da sala aberta para a rua e vejo três estrangeiros, um casal talvez ligeiramente para lá da meia idade e um rapaz novo, numa mesa baixa, sentados frente a chávenas de café aquecidas pela chama de uma vela.
A conversa desponta e convidam-me a sentar. Revelam-me que não, não são pais e filho, apenas turistas que se conheceram ao fazerem couchsurfing na mesma casa, e que haviam decidido dar um passeio juntos. Eu conto-lhes a minha história de viagem, que por esta altura já rola rápida e familiar como uma canção preferida.
O senhor, que sabe um pouco de vietnamita, pede-me uma banh mi de peixe. A banh mi é, na essência, a versão gastronómica da história da história do Vietname: uma sandes que combina ingredientes franceses - como as baguetes e o paté - com elementos típicos da cozinha vietnamita - coentros, molho de peixe e vegetais vários. A versão típica é recheada com carnes frias, mas também aqui, sinal dos tempos, já se fazem concessões aos vegetarianos e psicívoros deste mundo.
Podia dizer-vos a delícia que é trincar aquela crosta de pão estaladiça e sentir o fresco do pepino, o quente do picante, o peixe de sabor peculiar e tudo o mais de fantástico e estranho que se enconde numa baguete a la vietnamita. Podia dizer-vos, é verdade, mas há experiências que só tidas em primeira mão.
E depois, inebriada, não resisto. Venha mais uma chávena de café, com velinha incluída. Há cinco anos que não bebo café, essencialmente porque o meu estômago o suporta mal, mas o café no Vietname é toda uma experiência local a ser tida, tão necessária quanto uma visita à famosa Baía de Halong. É vê-los, rua sim rua sim, homens vietnamitas de todas as idades, de copo ou chávena na mão, bebericando café horas a fio.
Porém, é a primeira vez que vejo o líquido escuro de perto. O café que bebem os meus companheiros de mesa é espesso e luzidio e cheira a chocolate que se farta, o que será muito provavelmente o leite condensado a falar. Leite condensado, no Sudeste Asiático, é o proverbial pão nosso de cada dia em matéria de bebidas quentes. Se desconfiarem que está lá, é bem possível que esteja.
Quando me depositam em frente a chávena, dou-me conta de que vem fria e que a chama da vela não está lá para manter a bebida quente, mas para a aquecer. Quando a temperatura chega ao ponto ideal, dou o primeiro golo. Nesse momento inicia-se a luta entre as minhas papilas gustativas e o meu estômago, as primeiras a exclamarem "que bem que sabe!", o segundo a berrar "ai que me matas!". Por fim o estômago vence e a chávena fica a mais de metade. Ofereço-a a um dos meus colegas turistas.
Terminadas as apresentações e as primeiras conversas, à volta da mesa o consenso parece ser o de partirmos em comitiva rumo ao Museu de Etnologia, um dos (justamente) mais celebrados de Hanoi. Uma colecção que, bem vista, ocupa facilmente uma manhã ou tarde e que revela em detalhe a vida e as tradições de cada grupo étnico do Vietname. Fica fora do centro, mas em terra desconhecida um passeio de autocarro é sempre bem-vindo. Lá vamos os quatro, pois, cada qual com a sua mochila ou carteira, correndo por entre os pingos de chuva.
To be continued
Quando me depositam em frente a chávena, dou-me conta de que vem fria e que a chama da vela não está lá para manter a bebida quente, mas para a aquecer. Quando a temperatura chega ao ponto ideal, dou o primeiro golo. Nesse momento inicia-se a luta entre as minhas papilas gustativas e o meu estômago, as primeiras a exclamarem "que bem que sabe!", o segundo a berrar "ai que me matas!". Por fim o estômago vence e a chávena fica a mais de metade. Ofereço-a a um dos meus colegas turistas.
Terminadas as apresentações e as primeiras conversas, à volta da mesa o consenso parece ser o de partirmos em comitiva rumo ao Museu de Etnologia, um dos (justamente) mais celebrados de Hanoi. Uma colecção que, bem vista, ocupa facilmente uma manhã ou tarde e que revela em detalhe a vida e as tradições de cada grupo étnico do Vietname. Fica fora do centro, mas em terra desconhecida um passeio de autocarro é sempre bem-vindo. Lá vamos os quatro, pois, cada qual com a sua mochila ou carteira, correndo por entre os pingos de chuva.
To be continued







...nenhuma das partes parece dispensável sem perda de uma virtude essencial... Olá querida A. Que bom é viajar assim, compreendendo como a vida, dos seres humanos às matérias inertes, é uma amálgama rica de lugares e acontecimentos :) Um beijo, fico à espera de nova continuação.
ResponderEliminarObrigada! Um beijinho
EliminarAdriana,
ResponderEliminarAdorei as histórias de Hanoi; conseguimos imaginar e estar dentro do acontecimento; sempre quis ir à Conchichina....
Ontem estive a almoçar com a manela Goucha, Maria Josá e Manuela Barreto e imaginamos por onde andarias.Faltavas tu! Onde estás agora?
bjs
Obrigada! Hanoi foi uma cidade que me disse bastante! Agora estou na Austrália, de momento na zona de Sydney. Ainda falta algum tempo para voltar, mas nessa altura temos de combinar um almoço para vos contar mais histórias de viva voz. Um beijinho
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