Há quem lhe chame o autocarro do inferno. São vinte e quatro horas na estrada desde Vientiane até Hanoi, com direito a passagem na fronteira para carimbar o passaporte. Uma verdadeira odisseia automobilística capaz de fazer homens grandes chorar. E digo homens grandes porque são precisamente esses os que mais choram, encolhidos e retorcidos durante horas para caberem nos seus lugares desenhados para o físico asiático.
Para mim, a questão nem se põe. Vou confortável no meu lugar aconchegado, quase espaçoso, a provar que andar de autocarro na Ásia é uma daquelas raras ocasiões em que o meu tamanho de bolso compensa. Talvez por isso não me tenha ficado memória amarga do trajecto que tantos temem.
Recordo-me de deixar o Laos à luz abafada do crepúsculo e de logo travar amizade com três francesas que iam para o mesmo destino. De sentir o autocarro parar junto à fronteira, lá para as duas da manhã, e de ali ficarmos a dormir e a aguentar a bexiga até serem sete. Recordo-me da chuva torrencial que encharcava tudo, e nós em trajes de veraneio, desprevenidos para este clima, a sermos mandados sair para atravessar o posto fronteiriço. Depois a fazermos fila, a apresentarmos as bagagens para revista, a deixarmos em mãos oficiais o passaporte e uma módica "taxa de processamento". Por fim, já de regresso ao assento-cama designado, recordo-me do calorzinho do cobertor, de ler, de dormitar, de me perder no embaciado do vidro e de pensar na vida e em todas as razões porque gosto tanto de viajar de autocarro. No fim de contas, a viagem do inferno revelou-se pouco ou nada infernal, apenas longa, inesperadamente invernosa e algo parca em pausas para aliviar as necessidades naturalmente naturais.
Quando chegámos a Hanoi era novamente de noite. Partilhando taxi, cruzei pela primeira vez a cidade a caminho do hostel previamente reservado. As ruas reluziam no escuro, com os seus alinhamentos de lojas com nomes sonantes, logo rompidos pelo desgoverno dos mercados nocturnos. Do meu lado do vidro pressentia-lhe o vigor, a agitação, mas também, paradoxalmente, a delicadeza e um cosmopolitismo inesperado. Como viria a descobrir, Hanoi é uma cidade que faz uso de muitas caras.
To be continued...

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