Num impulso, num mero capricho quase descerebrado saído não sei de onde, ouvi-me perguntar:
- Ainda estamos perto de Vientiane?
Aparentemente sim, mais ou menos. A verdade é que não fazia ideia de há quanto tempo estavamos na estrada. Não podia ter sido muito, mas no meu torpor feito de nervos já não sabia dizer quanto seria muito ou pouco. A única coisa que sabia era que estavamos no meio de uma estrada onde se viam carros e gente e isso, surpreendentemente, pareceu bastar-me, porque mais uma vez ouvi a minha voz elevar-se no ar e decidir:
- Eu fico aqui.
E então os acontecimentos precipitaram-se quase sem eu dar conta, como numa realidade paralela bizarra que se tivesse aberto ali. Do outro lado da porta vi surgirem dois olhos miúdos reluzindo no escuro, enquanto o passageiro com quem tinha vindo a falar me dizia:
- O meu irmão pode levar-te à estação.
Algures num canto esquivo da minha cabeça perguntei-me de onde teria vindo este irmão, caído assim do céu, ao mesmo tempo que outro canto do meu cérebro ia registando como ele era novinho, franzino, demasiado pequeno para aguentar a mota que conduzia, a minha pessoa e quatorze quilos de mochilas.
Mesmo assim desci, com armas e bagagens atrás, impelida por uma força invisível. O rapazito olhou para mim e, possivelmente mais aterrado que eu, ainda gritou qualquer coisa ao irmão, que lhe respondeu encorajadoramente antes de as portas do autocarro se cerrarem e este desaparecer no escuro da noite.
Voltei a contemplar a cena. Parecia-me impossível que viajassemos todos naquela mota e sobrevivessemos para contar a história. Ainda balbuciei:
- Tuk tuk, I will call a tuk tuk.
Mas o rapaz acenou com as mão e disse apenas:
- No money, no money.
A cena repetiu-se até eu ceder ao inevitável. Trepei para a mota, que quase caiu ao chão com o peso dos meus carregos, e assim que nos ajeitámos conforme foi possível lá partimos à desfilada, zumbindo entre os carros.
Quando me vi chegar à estação de autocarros, houve um suspiro de alívio no meu peito que se misturou com uma profunda gratidão por este rapaz que, sem me conhecer, tinha empenhado o seu tempo e o seu combustìvel para me trazer sã e salva a um porto mais seguro. Perante a insistência de "no money" ofereci-lhe tantos obrigadas e vénias quantos pude e corri para o guichet de informações da estação.
Começava, agora, a segunda parte do meu problema. Como já não tinha o recibo da guesthouse mas apenas o bilhete correspondente ao autocarro onde me tinham erroneamente metido, foi preciso explicar em detalhe o que se tinha passado.
Uma outra alma caridosa, que me pareceu ser o responsável de turno, aceitou ligar para a pensão em causa. Falei com duas ou três pessoas diferentes, uma das quais gritava insistentemente "why you didn't go on the bus!". Depois de repetir as minhas desventuras umas poucas de vezes e de guinchar de volta "because it was the wrong bus!" lá consegui que me pusessem no autocarro da noite para Savannakhet.
Como depois me apercebi, era um sleeper bus daqueles em que se partilha um cubículo rectangular sem assentos - uma espécie de cama, portanto - com outro passageiro. Mas eu nem quis saber! Tudo ali me parecia o céu, porque estavamos a caminho da cidade certa, à hora certa, e só isso me importava.
É claro que não há duas sem três, e embora não o soubesse ainda, ao chegar à pensão de destino, pelas cinco e meia, ficaria ainda uns bons dez minutos a bater à porta no escuro, sem que ninguém viesse abrir. Foi apenas por sorte que uma vizinha me viu ali e, percebendo o meu drama sem palavras, foi bater numa porta traseira, acordando assim o recepcionista que dormia a sono solto. A terceira alma caridosa, numa noite tão cheia de azares e medos como de sortes inesperadas.
A verdade é esta: tal como a comédia e o drama, também o azar e a sorte são, no fim de contas, uma questão de perspectiva. E é por isso que mais do que dos nervos e da frustração, me ficaram gravadas desta noite as estrelinhas reluzentes que o destino quis colocar no meu caminho e que, sem interesse nem ganho pessoal, me guiaram suavemente através das águas revoltas até terra firme. Nada de espantar num país como o Laos, onde um coração grande e generoso parece ser o maior atributo das gentes que cá vivem.
Oups Adriana, estes dois posts já fizeram estremecer o meu coração de mãe, brrr. Ainda bem que acabou tudo em bem:-)
ResponderEliminarÀ espera da próxima aventura.
Não sei a quem pertence o comentário, mas obrigada pela visita! É verdade, tudo fica bem quando acaba em bem. Agora é uma história engraçada de viagem para contar no blogue e, um dia, quem sabe, aos netos.
EliminarForça, Adriana! Agora que estás mais aliviada e já desabafaste os sobressaltos, ocorre-nos lembrar uma conhecida definição de 'adventure' : ”extreme circumstances recalled in tranquility.”
ResponderEliminarContinuação de boa e aventurosa viagem.
Vera e Zépestana
Bela definição! Hehehe um beijinho e obrigada!
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