Adorava que me caíssem no bolso dez mil kip - coisa para menos de um euro - por cada reacção semi-fria que já ouvi de outros viajantes sobre a cidade de Vientiane. A opinião comum parece ser a de que, para capital, Vientiane é uma real pasmaceira e um satélite quase quase a sair da órbita dos itinerários relevantes no Sudeste Asiático. Certos visitantes, mais encarniçados no seu desgosto, vão mesmo ao ponto de lhe chamarem "a capital mais aborrecida do mundo".
Muitas vezes me perguntei se teríamos estado na mesma cidade. Das duas vezes que por lá passei, num total de quase uma semana, não encontrei razão de queixa contra Vientiane -- muito pelo contrário! Está bem, não estamos propriamente no coração da batida festeira como em Banguecoque. Mas se para alguns isso é um deal breaker, para mim, que gosto das primeiras horas da manhã vividas ao acordar e não antes de ir para a cama, não conta como defeito.
É verdade verdadeira, quase de La Palice, que em grande parte vivemos os lugares como extensão da nossa circunstância, ou seja, que tendemos a gostar mais das cidade em que andámos particularmente felizes e bem acompanhados.
Por essa bitola, é natural que me tenha apegado a Vientiane. A primeira visita, com a L. e a R., foi uma pequena festa contínua e aquilo que falhou em sightseeing foi mais do que amplamente compensado por galhofa, brindes profusos, serões de cartadas e filmes e, sim, até uma celebração antecipada de Ano Novo (em jeito de despedida) com direito a doses copiosas de sushi.
Em suma, confesso desde já o meu a priori favorável por motivos relativamente externos à cidade em si, mas afinal de contas, qual a opinião verdadeiramente objectiva?
De todo o modo, mesmo à segunda visita, primeiro ainda com a L. e por último a solo, Vientiane não perdeu o seu charme. Aliás, depois de alguns passeios à descoberta do que não tinha visitado antes, o meu afecto por esta simpática capital só fez foi crescer. Assim sendo, e rapinando o mote ao poeta Robert Barrett Browning quando perguntava "How do I love thee, let me count the ways", aqui vai a minha lista de cinco razões para ter visitado Vientiane - e gostado!
Razão n.° 1: passeios no paredão, ao pôr-do-sol. Com maré cheia ou maré vaza, o entardecer alaranjado de Vientiane convida turistas e locais a esticarem as pernas junto ao rio, seja em ritmo de jogging ou de simples deambulação, num caminho que se estende por uns bons quarteirões. Para matar a sede, não faltam esplanadas onde estacionar e pedir uma cerveja, um cocktail ou um copo de vinho. Já de regresso, com o cair da noite, a área junto ao parque infantil vai-se enchendo de tendas para um pequeno mas simpático mercado nocturno.
Razão n.° 2: uma inesperada colecção de livros a menos de um euro. O impacto desta afirmação só se entende por completo se se tiver em conta que no Laos o acesso a livros e livrarias não é exactamente abundante e que muitas das vezes uma pessoa se vê limitada às trocas de livros que possam existir nos hostels ou a pequenas lojas que vendem sobretudo literatura de férias e guias de viagem em segunda mão, não raro em volumes copiados que rapidamente se esfrangalham. Mas em Vientiane, nas traseiras do New Wave Hair Studio - isso mesmo, leram bem, salão de cabeleireiro! - fui dar com um conjunto muito apreciável de estantes contendo uma estranha mas interessante mistura, desde clássicos ingleses, a romances contemporâneos, à filosofia. E tudo, absolutamente tudo, por dez mil kip o exemplar. Na impossibilidade de trazer meia sala, fiquei-me pelos fininhos mas substanciais "Siddartha", de Herman Hesse, e "Zen in the Art of Writing", de Ray Bradbury.
Razão n.° 2: uma inesperada colecção de livros a menos de um euro. O impacto desta afirmação só se entende por completo se se tiver em conta que no Laos o acesso a livros e livrarias não é exactamente abundante e que muitas das vezes uma pessoa se vê limitada às trocas de livros que possam existir nos hostels ou a pequenas lojas que vendem sobretudo literatura de férias e guias de viagem em segunda mão, não raro em volumes copiados que rapidamente se esfrangalham. Mas em Vientiane, nas traseiras do New Wave Hair Studio - isso mesmo, leram bem, salão de cabeleireiro! - fui dar com um conjunto muito apreciável de estantes contendo uma estranha mas interessante mistura, desde clássicos ingleses, a romances contemporâneos, à filosofia. E tudo, absolutamente tudo, por dez mil kip o exemplar. Na impossibilidade de trazer meia sala, fiquei-me pelos fininhos mas substanciais "Siddartha", de Herman Hesse, e "Zen in the Art of Writing", de Ray Bradbury.
Razão n.° 3: uma visita ao Centro de Visitantes da COPE. A COPE é uma organização sem fins lucrativos que procura dar resposta às necessidades dos sobreviventes de munições por explodir (UXO), cooperando com o Centro de Reabilitação Médica e os centros de reabilitação provinciais para permitir o acesso a próteses e dispositivos ortopédicos e a serviços de reabilitação, incluindo fisioterapia, terapia ocupacional e serviços pediátricos. A missão do Centro de Visitantes é divulgar, através de uma exposição e de documentários vários, a problemática das munições por explodir no Laos, o trabalho das equipas de desminagem e as iniciativas da própria COPE em prol das vítimas destes engenhos. A visita ao Centro foi um dos momentos mais tocantes da minha passagem por Vientiane e abriu-me os olhos para uma problemática cuja verdadeira extensão eu desconhecia. Fiquei a saber, por exemplo, que apesar de não estar formalmemente em guerra com os EUA o Laos foi pesadamente bombardeado no âmbito da guerra com o Vietname e dos esforços para destruir o famoso trilho de Ho Chi Minh. Que é hoje o país mais bombardeado do mundo. Que cerca de oitenta mil quilómetros quadrados do seu território continuam minados, sendo a actual capacidade de desminagem largamente insuficiente para pôr fim ao problema a curto prazo. Que se pensa que todos os anos se registem cerca de trezentos novos casos de vítimas de munições por explodir no país. Um problema muito actual, portanto, que continua a fazer vítimas, e um pedaço de história que não pode ser esquecido, sob pena de se esquecerem também as lições que ele comporta. Para quem estiver na zona, aconselho vivamente uma visita e, para quem estiver longe, uma espreitadela ao site deles.
Razão n.° 4: cafés cheios de charme, boa comida e WiFi muito decente. Porque não um pequeno-almoço Ottomano no Croissant D'Or (TA), um croissant coberto de queijo derretido ou um cheesecake de maracujá no Cafe Sinouk ou um generoso caril acompanhado de um côco bem fresco naquele restaurante da avenida ribeirinha cujo nome imfelizmente não consegui reter? Um dos maiores prazeres de Vientiane é encontrar um destes sítios simpáticos e ficar na conversa, ler um livro, pôr a correspondência em dia ou simplesmente ver gente passar.
Razão n.° 5: o Laos real. Mais do que em Luang Prabang, em Vientiane senti o pulsar de uma cidade que vive e respira para lá do movimento gerado pelo turismo. Talvez por isso não possa esconder uma certa preferência pela capital, ainda que na forma Luang Prabang seja reconhecidamente mais polida, estética, fácil de apreciar.
Resumindo? Já aqui disse que o Laos não é um país do fazer, mas do estar. E Vientiane não foge à regra. Para quem for à procura do bulício e da excitação de uma grande cidade, é provável que venha de lá desapontado. Mas para quem entender o seu ritmo e se deixar levar, para quem se dispuser à magia da lentidão, Vientiane será como um cofre repleto de pequenas pérolas, com a benesse de serem poucos aqueles que estendem a mão para cavar nesse tesouro.
Razão n.° 5: o Laos real. Mais do que em Luang Prabang, em Vientiane senti o pulsar de uma cidade que vive e respira para lá do movimento gerado pelo turismo. Talvez por isso não possa esconder uma certa preferência pela capital, ainda que na forma Luang Prabang seja reconhecidamente mais polida, estética, fácil de apreciar.
Resumindo? Já aqui disse que o Laos não é um país do fazer, mas do estar. E Vientiane não foge à regra. Para quem for à procura do bulício e da excitação de uma grande cidade, é provável que venha de lá desapontado. Mas para quem entender o seu ritmo e se deixar levar, para quem se dispuser à magia da lentidão, Vientiane será como um cofre repleto de pequenas pérolas, com a benesse de serem poucos aqueles que estendem a mão para cavar nesse tesouro.
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| Passeios ao entardecer: antiga escola abandonada depois de um fogo |
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| Pôr-do-sol à beira-rio |
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| Patuxay, a Porta do Triunfo |
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| Fins de tarde, esplanadas e Beerlao |
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| Estádio Nacional do Laos |
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| Um aroma sem par |






Querida A.: texto, fotos e links deixaram-me rendida a Vientiane e à sua respiração própria. Os (meus) prémios de texto para a "magia da lentidão" e de fotografia para a 2ª foto, a contar de cima. Bjs.
ResponderEliminarFico contente de te ter persuadido! Muito obrigada! Um beijinho
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