segunda-feira, 17 de março de 2014

A viagem de todas as atribulações - parte I

Tinha dito adeus às minhas companheiras de duas semanas de viagem. Tinha refeito a mochila e comprado em devido tempo o bilhete de autocarro para Savannakhet, numa guesthouse perto da minha. Tinha-me preparado com repelente e um casaco extra para o frio artificial mas ártico com que os transportes colectivos de passageiros insistem em brindar-nos nesta zona do mundo. E mais: porque me tinham mandado, e nestas coisas eu sou relativamente bem mandada, tinha comparecido à hora certa para apanhar o pick-up que me levaria da guesthouse, no centro da cidade, à estação de autocarros. Tudo, absolutamente tudo, se alinhava cosmicamente para um desfecho satisfatório. Mas como sempre acontece, a vida tinha outros planos.

As coisas começaram de forma insuspeita. O transporte para a estação deu as mil e uma voltas do costume, percorrendo a cidade para apanhar nos respectivos alojamentos tantos passageiros quanto os seus bancos comportavam. Depois correram-se as estações de autocarros, primeiro a dos que iam para a Tailândia, por último as dos que iam para o Vietname e, ao que me disseram, também a minha, que ia já ali para uma cidade mais a sul.

O motorista mandou sair quem viajava para Hanoi, no Vietname, e disse-me que esperasse. Ao fim de poucos segundos, repareceu apressado e levou-me a passos largos a um senhor sentado perto de um autocarro já em funcionamento. Ali me trocaram o recibo da guesthouse por um bilhete propriamente dito. Até aqui tudo bem. Só que...

Mandaram-me entrar a correr para o autocarro, que já ia quase em andamento, de tal modo que nem tempo tive para colocar a mochila grande no compartimento próprio, situado na parte inferior do veículo. Faltava uma hora para o horário que me tinham dito que o autocarro cumpriria. Primeiro sinal de alerta. Conforme pude, ainda perguntei atabalhoadamente:

- Savannakhet? Is this the bus to Savannakhet?

O motorista, que claramente não falava inglês, limitou-se a acenar e madou-me sentar. Fui à procura do meu lugar, apenas para descobrir que, ao contrário do habitual, não havia lugares marcados. Segundo sinal de alerta.

Lá encontrei um sítio e o autocarro, que entretanto tinha estacionado noutro ponto da estação, acabou de se encher em menos de nada. Nisto um funcionário, claramente encarregado de optimizar o espaço para que coubessem todos os que tinham que caber, decidiu que eu tinha de deixar o meu lugar de janela e passar para um lugar no corredor, ao lado de uma senhora idosa que ocupava já banco e meio com uma mercadoria fina e comprida que recusava colocar noutro local que não entre ela e a janela. Depois de alguns protestos infrutíferos resignei-me e encaixei-me o melhor que pude no espaço sobrante.

Prontos para iniciar viagem, eis que se ligam em todo o habitáculo umas luzes psicadélicas dignas da melhor disco dos anos oitenta e algo que apenas posso descrever como um inferno musical aos altos berros desata a jorrar de colunas escondidas algures no tecto. Nunca, na minha curta vida de viajante, tinha visto nada daquilo. Terceiro sinal de alerta.

Por esta altura começava a nascer da dúvida a certeza muito concreta: este não podia ser o autocarro certo! Olhei ao meu redor. Caras locais, alheadas do dilema em que me encontrava, mas nem um único turista a bordo, nem uma alminha que correspondesse aos meus esforços para comunicar num idioma estrangeiro. Quarto sinal de alerta, e por esta altura o meu coração começara a bater desenfreado, na certeza da desgraça iminente.

Por fim, encontrei um passageiro que falava inglês.

- Desculpe, este é o autocarro que chega a Savannakhet por volta das quatro e meia da manhã?

A resposta deixou-me colada ao assento:

- Não não, este autocarro vai para Pakse. Pára em Savannakhet também mas é pela uma da manhã.

Agora, para que compreendam bem o meu terror, são precisas algumas explicações complementares. No Sudeste Asiático, quando um autocarro diz que chega a qualquer lado às quatro e meia da manhã, podem quase apostar que vai chegar pelo menos um pouco atrasado - ou mesmo muito. No caso, eu estava a contar chegar a partir das cinco, o que é uma hora relativamente razoável para se chegar a uma cidade nesta zona do mundo. A vida começa cedo por aqui e logo à saída do autocarro há tuk tuks mais do que dispostos a levarem-nos ao centro da cidade. Viajando sozinha, eu optara por jogar pelo seguro e marcara alojamento antecipadamente, tendo garantido por telefone que alguém me abriria a porta da pensão mesmo àquela hora.

Coisa bem diferente é chegar a uma cidade entre a uma ou as duas da manhã, hora em que está tudo a dormir e de porta fechada, sobretudo numa cidade pequena como Savannakhet e num país com recolher obrigatório a partir das onze e meia como o Laos.

Foi por isso que me gelou o sangue a hipótese de me encontrar sozinha, de mochila às costas, deambulando por uma cidade desconhecida nas primeiras horas da madrugada.

- Não está a compreender! Eu não posso chegar a essa hora, não tenho alojamento nem saberia para onde ir!

A minha voz soava esganiçada perante ombros encolhidos e olhares que diziam que o meu interlocutor não fazia ideia de qual fosse a solução. Insisti e voltei a explicar. Comprara o bilhete na guesthouse, tinham-me posto no autocarro errado e eu não podia chegar àquela hora. Tinha de voltar à estação e tentar meter-me no autocarro certo.

De nada adiantou. O meu interlocutor nada podia fazer e o motorista, quando consultado, também não. Os demais passageiros seguiam a trama sem perceberem patavina, até que o que falava comigo fez o favor de resumir a história na língua local e o autocarro prontamente explodiu numa gargalhada. Drama e comédia são, afinal de contas, uma questão de perspectiva.

Por fim, o autocarro encostou na berma e foi-me dada a escolha: ou ficas ou sais. Olhei para o escuro da noite que se adensava lá fora e tremi. Não sabia onde me levaria o outro lado da porta, mas sabia onde me levava este e não seria a nada de bom. Que fazer, que fazer, gritava o meu coração atordoado. Pela primeira vez desde que começara a viagem senti-me verdadeiramente só e sem saber para que lado puxar.

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