quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Jiuzhaigou

Basta uma pesquisa no Yahoo (por cá, o Google funciona com demasiados soluços) e fica-se de queixo caído. Lagos de um turquesa tão intenso que juraríamos que alguém se entreteve a derramar-lhes dentro baldes de tinta, cascatas brancas de espuma, arvoredo rendilhado, folhagens de Outono a atirarem os seus vermelhos contra a superfície silenciosa das águas, cores, cores e mais cores. Assim é o cartão de visita de Jiuzhaigou, um parque natural no norte da província de Sichuan, que a cumular a tudo isto conta ainda com a classificação de património mundial da UNESCO.

E porém, estive quase, quase para não ir. Desencorajada pelo preço invulgarmente elevado desta pequena aventura, pela perspectiva de duas viagens de autocarro em três dias, dez horas cada uma, e pelas histórias que ouvira quanto ao número disparatado de turistas acotovelando-se para mais uma fotografia, estava inclinada a entregar-me à preguiça e avançar para outras paragens.

Foi a promessa de companhia para o passeio que me fez mudar de ideias. Isso e a ideia de que mais vale o arrependimento pelo que se fez do que pela oportunidade perdida. No fim de contas, a promessa de companhia saiu gorada, pelo que me agarrrei com unhas e dentes ao segundo motivo e parti, com uma pequena mochila apenas, à aventura.

A viagem em direcção a Jiuzhaigou foi passada a gerir a fome à custa de fruta, bolachas e frutos secos e a dividir o meu assento com o parceiro do lado, que ocupava com calma olímpica assento e meio e de vez em quando me lançava uns sorrisos e umas palavras em chinês, seguramente à laia de compensação.

No fim do trajecto, esperava-me uma cidade fria, tipíca das zonas de altitude, e um hostel no mínimo peculiar. Fiz o check-in - duas vezes, porque o primeiro quarto que me destinaram afinal estava cheio - e após uma sopa wonton no restaurante da porta ao lado decidi dar por terminado o dia.

Encolhida debaixo de mantas grossas e vestida da cabeça aos pés, contemplei a extensão dos meus aposentos. Um quarto partilhado com outros quatro viajantes, construído no quinto andar do hostel, vulgo terraço, com o chão em cimento, mobília espartana e acesso a casa de banho e chuveiros uns metros mais adiante, no dito terraço. 

Apesar do frio siberiano que fazia lá fora, enfrentei o terraço e fui a banhos. Depois disto, restava-me dormir e esperar pelo dia seguinte, confiando na justa recompensa que me tinha sido prometida pelos meus esforços.

A recompensa chegou. Jiuzhaigou é o que prometem as fotografias e muito mais. Seguindo os conselhos que, no hostel anterior, me tinham sido dados por vários viajantes, estava a comprar o bilhete perto das sete e mal entrei no parque, disparei para dentro do primeiro autocarro que vi, ao redor do qual se concentrava já uma pequena multidão.

Após duas semanas e meia de China, uma pessoa deixa de se intimidar com os ajuntamentos. Empurrei, pois, como os demais, e dentro de nada estávamos a caminho de uma das pontas do parque, um recinto em forma de y atravessado a pé ou com a ajuda de autocarros hop on / hop off.

Decidida a optimizar o meu único dia no parque, caminhei cerca de dez horas e posso dizer que quase nenhum minuto passou sem que encontrasse motivo para abrir a boca de espanto. Partilho convosco alguns retratos do meu dia, certa de que outras imagens mereceriam igualmente estar aqui:










Apesar dos avisos quanto à sobrelotação do parque, e mesmo sendo fim-de-semana, encontrei muitos trilhos calmos por entre percursos mais agitados, e recordo-me em particular de um trajecto junto ao Lago Espelho, em que caminhei por uns minutos no absoluto silêncio de um trilho deserto. Um tipo de isolamento a que já não estou habituada, e foi vencendo um certo alarme subconsciente que me decidi a seguir assim, sem gente à vista, apreciando o momento invulgar.

Escrevo estas linhas no autocarro de regresso. O meu corpo experimenta dores e desconfortos vários e faz-me dormir várias horas para lhes escapar. Mas é nos intervalos de vigília que enfrento a primeira e mais fundamental de todas as aventuras na China. Perdoem-me a incursão algo escatológica, mas é impossível não dedicar umas palavras a esse teste à resistência do viajante que é a utilização de uma casa de banho pública nas áreas de serviço em que param os autocarros. Nada de sanitas, nada de portas, apenas uns curtíssimos meios muros a servir de divisória. Vocês imaginam o resto.

Por vezes seria fácil uma pessoa entregar-se ao negativo. Por quanta beleza que se veja, por quantas maravilhas que nos sejam dadas a experimentar, há sempre espaço para uma pessoa lamentar a falta do aconchego e do familiar. Enquanto vejo passar cidades e montanhas do outro lado do vidro, ocorre-me que no fim de contas é a mente, e não o corpo, que decide que sim, hoje foi um dia bom.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Gigantes na bruma

A caminho do topo
Imaginem-se no alto e depois ainda mais alto do que isso. As nuvens abraçam-vos com o seu hálito frio mas o suor empapa-vos a roupa e o cabelo, ao mesmo tempo que qualquer coisa gelatinosa substitui as vossas pernas e o bater desenfreado de uma bomba-relógio pulsa onde antes pulsava o vosso coração. Três coisas apenas vos fazem continuar: a fantástica companhia, que antecipou a sua ida para que vocês pudessem ir também; o vosso amor próprio, que nem mortos vos deixaria ficar pelo caminho; e a vontade insuprimível de chegar ao topo. 

E o que há no topo? A certeza da missão cumprida. Ou talvez não. 

Naquele dia, para mim, a missão só se cumpriu na base, depois de enfrentar em dobro cada um dos tortuosos degraus que ligam o sopé da montanha Hua Shan, uma das cinco montanhas sagradas do Taoísmo, ao seu pico norte, confiando a vida, por vezes, a inquietantes correntes que se oferecem como ponto de apoio quando a subida se torna demasiado íngreme.

E enquanto o esforço me fazia arfar e pedia pequenas pausas para uma respiração mais funda, eu observava os anciães da região subirem e descerem degraus com uma ligeireza que desmentia os pesados fardos que levavam às costas, seguramente provisões para abastecerem as lojinhas que, espontâneas como cogumelos, despontam um pouco por toda a parte a caminho do topo. Qual acrobatas, as suas esguias figuras equilibravam às costas paus com fardos em cada ponta e desenhavam graciosas elipses sempre que as escadas mudavam o sentido da marcha.

Numa dessas pausas passa por nós um chinês, claramente determinado mas sem a mesma ligeireza dos vendedores, e num breve momento, observando o suor que nos tomava de assalto, confessou-nos que já por várias vezes viera subir esta montanha, porque o desafio lhe reforçava a coragem e a força de vontade.

Por esta altura, a minha força de vontade caminhava uns metros abaixo da minha cabeca, o que é dizer qualquer coisa quando parte do percurso o fazemos praticamente de gatas.

E porém, persisti.

No topo!
13km depois, uma t-shirt directa para a lavagem, pernas em modo de emergência, que é aquele modo em que tudo treme e de repente vocês se vêem sentados no chão sem saberem muito bem porquê, e ainda assim o que predomina é uma fanfarra inaudível dentro do peito, que apenas sabe cantar: EU VENCI UMA MONTANHA!

Apesar do nevoeiro cerrado que vos fez subir às cegas quase todo o tempo, os deuses quiseram que na recta final vocês e os vossos dois companheiros de percurso tivessem por troféu uma aberta crescente, por onde o sol do fim do dia veio tornar visíveis e douradas as montanhas que durante horas vos vigiaram a subida, quais gigantes inertes e silenciosos.

De Pequim a Chengdu

Seriam precisos outros trinta dias para partilhar convosco tudo o que sucedeu no primeiro mês de viagem. Demasiadas ideias, demasiadas fotografias e um mecanismo desesperante de gestão do blogue - um tablet não é como um computador, aprendi eu! Assim sendo, da primeira porção de cidades que visitei neste verdadeiro país das maravilhas, escolhi as histórias que mais me apetecia contar e são essas que se seguem. De fora fica ainda muito do essencial... Mas mais posts virão. 

A GRANDE MURALHA, ARREDORES DE PEQUIM


De cortar a respiração... por vezes literalmente! Um percurso nem sempre fácil mas absolutamente inspirador, de Jinshanling em diante, em secções parcialmente não restauradas da muralha e com espaço e silêncio em abundância. Impossível de explicar, a sensação de liberdade e de simples presença, lá no alto.


A paisagem mais para o fim do percurso, a que uma fotografia, com todas as suas virtudes, não pode ainda assim fazer justiça.

PALÁCIO DE VERÃO, PEQUIM


Conquistando o duro caminho até à iluminação, lá bem no topo, no Templo do Incenso Budista. Um dos muitos templos e pavilhões coloridos deste espaço onde, rodeada pelo verde dos jardins e o azul dos lagos, a família imperial em tempos procurou sossego e lazer.


Nem o Inverno perturba a beleza serena de um passeio à beira-lago (só as multidões de fim-de-semana, milagrosamente fora desta fotografia, o podem fazer!)

MERCADO PANJIAYUAN, PEQUIM


Um autêntico must dos fins-de-semana em Pequim, pela sua portentosa extensão e variedade e porque não sei em que outra feira da ladra seria possível comprar estatuária dimensionada para uma qualquer praça pública europeia!

GUERREIROS DE TERRACOTA, ARREDORES DE XIAN


Os afamados guerreiros, com um pormenor apreciável, é certo, bem conservados, é certo, mas tristonhos quando vistos assim, do lado de cá de um mar de turistas que continuamente se abatia contra as barreiras de segurança erguidas a vários metros de distância das escavações. Underwhelming...


Inesperadamente, um dos ângulos que mais me impressionou foi este, tirado do fundo da sala.

MONTANHA HUASHAN, ARREDORES DE XIAN


Apesar do nevoeiro cerrado que prejudicou a vista durante toda a subida, chegar ao pico norte desta montanha e depois descer pelo mesmo caminho foi um dos esforços mais atrozes e mais recompensadores que alguma vez empreendi! Mais pormenores no próximo post.

BAIRRO MUÇULMANO, XIAN



Os cheiros vêm de todos os lados, tal como as luzes e as pessoas. Restaurantes alinhados rua fora, banquinhas onde se cozinha ao ar livre, lojas de tudo o que se possa imaginar comestível, e mais ainda, assim é o bairro muçulmano de Xian, ao qual a noite empresta uma vibração muito particular. Há mais para fazer aqui além de comer, sobretudo durante o dia, mas cá para mim, a hora da refeição é mesmo a melhor para visitar este lugar.

SANTUÁRIO DOS PANDAS, CHENGDU



Depois de uma noite de arromba...

GRANDE BUDA, LESHAN


Se cada orelha mede 7 metros, podem imaginar o tamanho do todo. Impressionante, este Buda gigante, mas também o é a vista fantástica que o seu olhar inerte para sempre contempla! Para os mais perseverantes, há um prémio final: seguindo as escadarias que rodeiam o Buda e evitando a saída, avaça-se quase a solo para uma sonolenta aldeia piscatória, uma ponte a fazer lembrar uma China perdida no tempo e, como sempre, no alto de uma grande subida, um templo rodeado de vistas desafogadas.