terça-feira, 3 de junho de 2014

Três dias em duas rodas - parte I

Fotografia à pendura
Nas terras altas do centro o coração do Vietname muda de ritmo. Um país tranquilo, todo arrozais verdes e fulgurantes, todo plantações de fruta, café, pimenta, todo montanhas e aldeias e céus intermináveis.

Zumbimos pela estrada fora, o J. no comando da mota robusta que nos carrega, eu despreocupada pendura, olhos inundados de sol e boca cheia do agridoce do fruto do cacau. Ele diverte-se com a minha gula deliciada e, enquanto atiro uma semente gorda e já descarnada para a berma da estrada, vendo-a desaparecer rolando entre a vegetação, explica-me que é difícil encontrar esta fruta no mercado, pois para os agricultores é mais rentável comerem-na e usarem as sementes para fazerem chocolate que, esse sim, vendem por um preço superior.

O J. é o meu guia local sobre duas rodas, o EasyRider designado para me levar de Da Lat a Ho Chi Minh em três dias de viagem, com uma fartura de paragens para apreciar a paisagem e cultura locais. É jovem, algures entre os vinte e muitos e os trinta e poucos, com olhos afáveis e pele moldada pela vida ao ar livre, cabelo fino e escuro alongando-se para lá dos limites da bandana que afasta madeixas dos olhos e protege um cocuruto já pouco hirsuto. Gosta claramente de conversar e, vou percebendo, sabe imenso sobre a região, nunca se embaraçando em dar resposta às minhas perguntas curiosas sobre o porquê disto ou daquilo.

Rebelde da berma da estrada!
Os EasyRiders são uma instituição omnipresente no Vietname: homens vietnamitas que, guiando mota, conhecendo bem as peculiaridades locais e falando um idioma estrangeiro, oferecem os seus préstimos a turistas que não queiram perder esta forma única de descobrir o país, mas não se sintam habilitados a enfrentar o trânsito local a solo. Diz-se que o conceito terá nascido em Da Lat, com um pequeno grupo de homens locais que, estando desempregados, decidiram fazer algum dinheiro transportado turistas de um local a outro. Hoje existem às centenas, espalhados por todo o Vietname, e de transportadores passaram a verdadeiros guias, oferecendo vários itinerários que podem ir de um dia a um mês, e podem passar por viajar à pendura ou em mota própria, em grupo ou em tour individual.

Guias há-os essencialmente de dois tipos: os que se agruparam em clubes, normalmente identificáveis pelas cores dos casacos e por vezes com "sede" própria num café ou restaurante, e os que trabalham de modo independente.

Escolha não vos faltará: o difícil é mesmo separar o trigo do joio e saber em quem confiar, especialmente se, como eu, planearem viajar sozinhos. Um excelente ponto de partida será procurarem opiniões de outros viajantes na internet (TripAdvisor, TravelFish, etc). E depois há que ver o guia cara a cara, ver se gostam do estilo, perceber se fala bem inglês, clarificarem os pormenores da viagem: qual será o itinerário exacto e com que pontos de interesse; o que está incluído no preço (das minhas pesquisas, em regra transporte e alojamento sim, seguro às vezes, refeições não); qual a mota e qual o seu nível de conservação/conforto. Muitos dos guias têm um caderninho de testemunhos em várias línguas que poderão ler, bem como um album de fotografias de viagens anteriores.

Depois de muito trastejar rua acima rua abaixo para falar com diferentes grupos, acabei por assentar na companhia Scimitar EasyRiders, para o itinerário Dalat - Ho Chi Minh.

Durante três dias um buffet de cores e sabores locais desafia-me os sentidos, ataca-os com o aroma pujante da liberdade, daquilo que é novo e vagamente indomável. Assim, vermelho, amarelo, carnudo, é o fruto do caju. Assim, suave, fria, mole, pesada, é uma cobra ao pescoço, Assim, no meio deste cheiro punjente, se faz aguardente. Assim se vive nas montanhas, em casas erguidas sobre estacas, rodeadas de animais e caminhos de terra e pó. Assim, cada precioso milímetro de pele defendido de potenciais aumentos de melanina, as mulheres caminham cobertas em dias quentes. Assim começava o trilho de Ho Chi Minh. Assim o vento fustiga a cara e o sol aquece quando aceleramos numa mota ladeada de árvores. Assim é nadar num lago deserto, o silêncio da mata recortado pela veemência de uma cascata.

Não trocaria esta experiência em duas rodas por nenhuma outra. Eu, a motociclista renitente e medrosa, inteiramente rendida a este singular modo de viagem. Exposta aos elementos, misturada com eles, renascida. E o Vietname tão perto, na ponta dos dedos, inteiro, profundo, real.

*

Nas partes II a IV deste post deixo-vos um registo visual resumido desta viagem ímpar.

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