quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tet em Ho Chi Minh - parte I

With many thanks to D., for making me feel so welcome in this big city

Depois de três dias na paz das terras altas centrais, Ho Chi Minh atinge-me com o furor das grandes cidades. A maior metrópole do Vietname, que alberga cerca de sete milhões e meio de habitantes num espaço urbano onde modernidade e tradição se casam bem ao jeito asiático, saúda a minha chegada nocturna com um coro de vozes e uma amálgama de corpos precipitando-se rua acima rua abaixo, sob a luz potente de mil e um estabelecimentos comerciais. Mas a hora não é para visitas: o corpo cansado da estrada exige repouso. De mochila grande atrás e mochila pequena à frente - a típica "formação" backpacker - parto em busca de uma cama na grande cidade, aquela a que muitos, por hábito, preferência estética, marketing turístico ou inclinação política, ainda chamam Saigão.

Na primeira manhã acordo com o escuro a tornar-se alvorada. Desço do hostel para a rua, deixando guiar os meus passos pelo instinto, seguindo os sinais tímidos da vida que desponta no parque público em frente. Acabo por desaguar num vasto espaço comum, aplainado com cimento e apetrechado com longas redes, onde desportistas madrugadores enchem o ar de movimento, bolas de voley e raquetes de badminton. Num pátio mais pequeno, um trio dança com energia. Pelas ruas laterais corre-se. Também aqui, no meio de grandes edifícios e betão armado, a Ásia se levanta cedo para cuidar do corpo e do espírito.

Desportistas da alvorada

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Cheguei à cidade nas vésperas do Tet Nguyen Dan, ou Tet para os amigos, o ano novo lunar que o Vietname observa, com fervor e tradição, no primeiro dia do primeiro mês do seu calendário. O dia exacto varia de ano para ano entre o fim de Janeiro e o início de Fevereiro. As celebrações, essas, podem estender-se até uma semana. A data coincide com a do Ano Novo chinês e, tal como sucede na China, embora a uma escala menor, nas semanas que antecedem o Tet todo país se ocupa a embelezar casas e ruas e uma deslocação maciça translada milhares de vietnamitas das suas residências habituais para casa das família, frequentemente situadas em zonas mais rurais.

Justamente por isso, hesitei na decisão de visitar Ho Chi Minh durante o período festivo. O entusiasmo inicial com a ideia de assitir a uma celebração tão autenticamente vietnamita foi-se esboroando face a múltiplas advertências como "Ho Chi Minh é uma cidade-fantasma no Tet" ou "é impossível uma estrangeira sem amigos vietnamitas com quem passar o dia fazer parte de uma tradição que é, na essência, familiar."

Ora, o único verdadeiro contacto que eu tenho na cidade é a D., amiga de um amigo de Portugal, que com extrema simpatia me convidou para um jantar de boas-vindas, mas que deixará a cidade pouco depois, rumo à casa familiar.

Imaginei-me a passar uns dias aborrecidos e isolados e, pior, do lado de fora do verdadeiro espírito do Tet. Quase mudei de ideias e saí do Vietname mais cedo. Por fim, a curiosidade e o cansaço acumulado venceram e eu decidi permanecer no Vietname para as festividades, rumando depois a Phnom Penh, no Camboja, por via terrestre.

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Deambulo pelo distrito um, onde estou alojada, e percebo logo que foi a decisão certa. A alvorada deu lugar a uma manhã de sol e o parque em frente ao hostel, que se estende por uns bons quinze minutos de passeio a pé, encheu-se de flores. Um mar amarelo salpicado de rosa afoga-me a vista por uns momentos, mas mais adiante recua para dar lugar a outras cores e feitios. Como os eternos pinheiros estão para o Natal, assim certas flores e árvores estão para o Tet: as flores do pessegueiro, as flores da ochna interregima e as árvores de kumquat, um tipo de citrino tradicional desta zona do mundo. Mas muitas outras espécies vão desfilando por esta passarela urbana arborizada e florida onde me encontro. Nós, a pequena multidão de passantes vindos de todo o mundo, tiramos fotografias e evitamos à última da hora colisões frontais com outros corpos igualmente distraídos e maravilhados pelo espectáculo natural humanamente arquitectado.

Um exército de amarelo marcha pela cidade fora
Os impecáveis penteados das árvores de kumquat

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Como venho a perceber mais tarde, é no distrito um que gira o epicentro backpacker de Ho Chi Minh, mais precisamente na rua Pham Ngu Lao, que muitos têm comparado à afamada e infame Khao San Road de Banguecoque. Agências de viagens, agências de transportes, hostels, restaurantes baratos, bares aberto até às horas mais tardias da madrugada, tudo isto e mais converge e se acotovela neste lugar. E é ensanduichado entre a rua Pham Ngu Lao e a rua Le Lai que se encontra o Parque 23/9 (Vinte e Três de Setembro), onde os meus passos me trouxeram esta manhã.

Caminhando até à ponta Este do seu tapete ajardinado chega-se ao famoso mercado Ben Thanh. Uma atracção turística que sabe bem que o é, este mercado situado no centro da cidade oferece um pouco de tudo, desde comes e bebes, a têxteis, a fruta e legumes, a frutos secos e especiarias, a joelharia, a bugigangas e souvenirs, e muito mais, tudo a preços um pouco menos módicos que o habitual. No tecto, em moda invulgar, placas alertam o turista para que aqui não há que regatear: os preços são fixos. Mesmo assim, há quem tente a sorte.

A secção de roupa feminina
Fruta e legumes polidos e alinhados na perfeição

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Pela minha parte, depois de uns quantos cliques discretos - sinto-me sempre incómoda ao apontar ostensivamente a câmara a narizes desconhecidos - rumo a parte incerta em busca do almoço. E depois de muitas voltas e indecisões a providência entende finalmente manifestar-se sob a forma de um dos meus adorados restaurantezinhos de passeio, com duas ou três mesas apenas e uma multidão de gente local apinhando-se frente aos tabuleiros de comida. Nham nham!

A minha primeira refeição bem sucedida em Ho
Chi Minh

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