Chuva. Acima de tudo, recordo-me da chuva. Teimosa, escura, inescapável. O que, no caso, não é necessariamente defeito. Na Cidadela de Hue há uma decrepitude majestosa que combina bem com um céu plúmbeo.
Não digo que tenha sido fácil palminhar quilómetros ensarilhada num poncho de plástico e de botas ocasionalmente enterradas na lama, mas qualquer coisa no ambiente deste lugar parece exigir um clima severo para atingir a plenitude.
Talvez seja a noção do tempo que passa, levando consigo o vigor de todas glórias humanas, mesmo as mais magníficas.
Dentro do seu perímetro, o complexo da Cidadela alberga o que os anos e a fúria dos homens entenderam deixar à posteridade: ruínas da fortaleza e palácio onde, no século XIX, o imperador Gia Long, primeiro da dinastia Nguyen, instalou a sede do seu governo imperial. Hue conhecia, nesta altura, o seu momento histórico de glória enquanto capital do Vietname unificado.
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Porém, a minha primeira introdução à cidade não foi a poesia da chuva sobre os edifícios dilacerados da Cidadela de Hue, mas uns muito mais prosaicos banh nam de camarão.
Os banh nam são uma espécie de bolinhos de farinha de arroz achatados, cozidos ao vapor e servidos dentro de folhas de bananeira, no caso com pedacinhos de camarão cozido e um molho como só os vietnamitas sabem fazer.
Num inglês vagamente enviesado, a ementa garantia um paladar muito agradável, ideal para viajantes que não se sentissem a cem por cento. Nada de muito longe da verdade. Tendo acabado de chegar à cidade depois de catorze horas no autocarro nocturno vindo de Hanoi, o meu estômago certamente aceitou com agrado esta espécie de "comfort food" do Vietname
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Se há coisa que me agrada são surpresas semeadas no meio das cidades. Artistas ao virar da esquina. Moedas achadas entre as falhas do empedrado. Arquitectura invulgar. Arte nas ruas.
E só por isso, Hue já mereceria destaque no meu caderninho invisível de notas mentais onde vou guardando memórias de viagem para referência futura.
Nas extensões ajardinadas que se alongam em cada uma das margens do rio Perfume fui descobrir um ajuntamento de esculturas silenciosas que ninguém, salvo uma outra turista esquiva com quem por fim consegui meter conversa, parecia ter notado.
Nas extensões ajardinadas que se alongam em cada uma das margens do rio Perfume fui descobrir um ajuntamento de esculturas silenciosas que ninguém, salvo uma outra turista esquiva com quem por fim consegui meter conversa, parecia ter notado.
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Certa vez regresso ao quarto a meio do dia e encontro-o sentado no sofá, reclinado sobre a mesa baixa onde dispôs alguns igredientes para o almoço. A conversa desponta. Ele conta-me que aos sessenta anos, com os deveres da vida de um homem cumpridos, decidiu que queria ver o mundo antes de morrer. E assim começou a sua saga de viajante.
Nesta manhã, precisamente, tinha corrido meia cidade para comprar o bilhete de autocarro para o destino seguinte. Perguntei-lhe porque não fizera uso dos serviços da recepção.
Já não tem muitos anos de sobra, responde-me sem ponta de auto-comiseração. Por isso quer andar o mais possível e fazer tudo por si mesmo.
Sorrio em concordância e, no mais secreto da alma, envergonho-me dos meus momentos de preguiça lamurienta.







Gostei da chuva, das deambulações do estomago, das estátuas furtivas, do ancião que viaja e filosofa. Gostei de ler mais um relato de viagem! Um bj.
ResponderEliminarMensagem já antiga, mas não quero deixar de agradecê-la! Um beijinho
Eliminareu também devo estar no Vietname. é que não há meio de parar de chover! infelizmente a minha só é chata, não tem o interesse da tua. adorei o octogenário. beij
ResponderEliminarObrigada - com atraso, mas boas intenções! Um beijinho
EliminarOlá Adriana,
ResponderEliminarDepois de frustradas algumas passagens pelo blog sem notícias frescas, hoje apanhei de novo o fio, sendo que por esta altura também já estarás bem longe de Hanói. Adorei as novas histórias, boa continuação. Bjs!
Deixei escorregar esta mensagem sem resposta mas rectificando o erro, muito obrigada pela visita e pelas palavras aqui deixadas!
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