segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Aventuras em Khao Yai - parte II

Acordo com o primeiro pestanejar do sol. Saciada de sono, sou expelida da soleira da porta para a rua pela mesma força bruta que exorta cada bicho à vida. Rápido, rápido!, grita o novo dia, obstinando-se em começar. Toda eu me espreguiço. O brilho dourado da manhã cobre o mundo e enche de possibilidade e promessa o coração dos Homens. Para mim, a berma de estrada duvidosa de ontem amanhece pitoresca, genuína, refrescantemente remota.

Aproximo-me do restaurante semi-deserto. Após algumas buscas, consigo quem me sirva um pequeno-almoço de torradas, frutas e chá. Começo a refeição sozinha, no silêncio absoluto, mas pouco a pouco os bancos de madeira vão recebendo novos ocupantes e dentro de nada a vida canta a plenos pulmões.

Depois do pequeno-almoço, o nosso guia faz-se anunciar, reúne as tropas e começa a distribuir as primeiras instruções e as capas anti-sanguessuga. É hoje, por fim, o dia planeado ainda em Lisboa. Daqui partiremos à desfilada, na parte de trás de uma carrinha, com o vento a limpar-nos os restos de sono da cara e a rota apontada  ao nosso destino final: Khao Yai.

Situado a cerca de 180 km de Banguecoque, este parque nacional tailandês alberga uma interessante variedade de fauna e flora, justificando assim a sua classificação como património mundial pela UNESCO, enquanto parte integrante do complexo florestal Dong Phayayen - Khao Yai, que se prolonga para lá da fronteira com o Camboja. Aos viajantes é interdito aventurarem-se no interior da floresta e mesmo nos percuros autorizados, é exigido que se façam acompanhar por um guia.

O nosso é dos melhores. Com uma simpatia simples, que não esbanja mesuras, e um conhecimento feito de muitas e muitas horas a trilhar estes caminhos, vai-nos levando para os recantos onde adivinha estar a bicharada.

Durante o dia de passeio, alternando entre percursos de carro e caminhadas por entre as árvores, vamo-nos deparando com caras familiares e desconhecidas. Aqui um amigo macaco, ali um esquivo gibão, mais adiante um hornbill com o seu bater de asas magnífico, formigueiros que se erguem em altura, árvores milenares, formigas de corpo graúdo e determinação evidente, aranhas e as suas teias palacianas, e tantas outras maravilhas que testemunhamos enquanto avançamos pelo parque dentro.

Sinto no coração destemido a euforia de uma pequena aventura, a qual se vê ocasionalmente moderada por algumas doses de realidade, como quando o nosso guia decide alertar-nos para os perigos da febre da carraça, animal aparentemente abundante nestas florestas. Num automatismo colectivo, as mulheres do grupo levam as mãos aos cabelos, buscando possíveis inquilinos indesejados.

Todo o dia esperamos em vão o grande encontro com os elefantes. Nada é garantido no que toca a avistar bichos no seu habitat natural, por isso com o cair da tarde vamo-nos fazendo tristemente à ideia de que as cartas não nos reservaram tal privilégio. Eis que o telemóvel do nosso guia toca e partimos a todo o vapor. Sem mais palavras, sabemos que veio o alerta esperado: elefantes à vista!

Num incrível golpe de sorte, temos não um, não dois, mas três encontros imediatos de terceiro grau com elefantes, e se bem que por razões de segurança não nos seja permitido sair do carro, a proximidade é inegável. Entre a excitação de conseguir mais um minuto de vídeo e o cuidado para não irritar o objecto da nossa atenção, terminamos o dia num ponto alto.

Regressados à pensão, com caras felizes e corpos cansados, espera-nos um banho bem fresco, longe de ideal nesta zona de temperaturas baixas, mas indispensável para demover eventuais carraça ou sanguessugas dos seus propósitos maléficos. Eu, que gosto dos meus banhos com água pronta a cozer camarões, e que todo o dia jurei que banho ali nem pensar, entro com um gritinho contido na água gelada. E é nisto que, por entre tremeliques e arrepios, sinto um calorzinho inesperado chegar-me ao coração. O calorzinho orgulhoso de quem acabou de conquistar mais um pequeno desafio.






Fotografia tirada pelo guia
Fotografia tirada pelo guia
Fotografia tirada pelo guia


Aventuras em Khao Yai - parte I

Chegámos de noite. O carro encostou na berma da estrada e uma cara assomou ao vidro, confirmando que era ali. Era ali que eu ia dormir. Olhei para o outro lado do asfalto com olhos piscos. No meio do escuro vi um pequeno restaurante, meia dúzia de pessoas sentadas e nada mais. Nenhum letreiro, nenhum edifício em forma de pensão, nenhum sinal de ajuntamento humano assinalável. Mas garantiam-me que era ali o sítio certo e eu, atraída por aquele magnetismo irresistível que assiste às coisas que não têm mais remédio, segui o rapaz que me viera buscar.

A viagem que parecia simples começara com uma atrapalhação. Tinham-me muito generosamente oferecido uma boleia de Surin para as imediações de Pak Chong, onde eu ia passar a noite, para no dia seguinte fazer um trekking no parque nacional de Khao Yai. E eu aceitara. A proposta era sairmos pelas quatro e chegarmos pelas sete, mas ainda antes de nos pormos a caminho chegara a notícia de que o último troço de estrada para o meu destino final estava atulhado de trânsito, à conta de um concerto. A alternativa era ir de mota, com armas e bagagens. E mesmo assim ia levar o seu tempo. Torci-me toda por dentro, mas impedi-me de dar parte de fraca.

Contudo, este não seria o fim das atribulações. Algures a meio do percurso, o azar voltou a abater-se sobre a nossa pequena nau de quatro rodas e vimo-nos perdidos por terrenos escuros como breu e com buracos em forma de cratera lunar - e, é claro, sem GPS nem sinal no telemóvel! Quando, por fim, regressámos ao trilho conhecido iamos com um atraso assinalável e ainda nem tinhamos de chegar ao troço supostamente demorado.

Acho que roí unhas durante uma boa hora, até a actividade me ter esgotado a tal ponto que adormeci. Quando acordei tinhamos milagrosamente chegado, sem mota nem fila de que me tivesse apercebido. Como naquela magia que só o teatro e as viagens consentem, a catástrofe iminente fora misteriosamente evitada, -de certo que muito por mérito de quem, ao volante, venceu o cansaço para me levar ao destino final.

E contudo, nem assim se soltou do meu peito o proverbial suspiro de alívio. Pois aqui estava eu, ainda coberta de sono, a tentar em vão descortinar na noite cerrada os contornos da pensão cujas fotografias me recordava de ter visto na internet.

Sim senhora, dizia a cara do outro lado do vidro, era ali mesmo. Retomando mochilas e pensamento consciente, segui o rapaz. Os meus generosos convivas, depois de me acompanharem até ao outro lado da estrada e me verem bem entregue, voltaram a pôr-se ao caminho.

Dizer que atravessei o conjunto de mesinhas e bancos baixos à beira do asfalto com desconfiança no coração é dizer pouco. Dirigindo-nos às traseira do estabelecimento, passámos por um pequeno corredor, por um largo, por diferentes portas cerradas, sempre na semi-obscuridade, até que por fim, com o abrir de uma última porta, a luz se fez das trevas. Ali ia dormir, entre quatro paredes nuas, uma cama e uma casa de banho com sanita, lavatório e duche de água fria. Sem luxos, mas funcional. Deixaram-me as chaves, citaram-me um preço simpático e no mais gaguejaram perante as minhas subsequentes tentativas de colocar questões em inglês. 

Por via das dúvidas, mal me deixaram sozinha voltei a sair do quarto e fui interrogar a meia dúzia de pessoas que me lembrava de ter visto lá fora, sentada nas mesinhas. Sim, era mesmo aquela a guesthouse certa. Sim, era dali que saía o tour do dia seguinte para o parque Khao Yai. Por fim relaxei. A visão de túnel feita de stress e cansaço começou a dissipar-se e o meu cérebro dedicou-se finalmente a juntar as peças soltas daquele cenário e a construir uma pensão de beira de estrada, vulgar de Lineu, sem fantasmas evidentes nem esquemas ocultos.

Fora um dia longo e estava deserta por um banho e cama, mas a temperatura de fazer bater o dente e a ausência de água quente no chuveiro fizeram-me ficar pela segunda. Enrolei-me no meu polar, no forro de saco-cama e por fim na manta disponível, deixando trepar o calor pelas pernas acima. Denso como um manto, o sono não tardou em retomar o seu posto.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Surin em família

With much gratitude to J. and her family, who took me into their home with great generosity, warmth and kindness

Em Surin acabei de lavar as minhas mágoas com Banguecoque. Foi aqui que vim descobrir a outra Tailândia, a tal dos sorrisos, dos braços abertos, da grande generosidade.

Estamos no nordeste do país, na região do Isan. Li algures que menos de dois por cento dos turistas na Tailândia ruma a estas paragens. Não sei se é verdade, mas qualquer que seja o número, não registo mais que uma dezena de rostos ocidentais nos dias que aqui passo.

Passeando por Surin e arredores, vou anotando as diferenças. As estradas desimpedem-se e fazem-se ladear de paisagem agrícolas ou, no centro das cidades, de pequeno e médio comércio local. Ruínas e templos surgem mais espaçados entre si. O inglês reduz notoriamente a sua presença. Espaços e negócios destinados a estrangeiros deixam de sobressair. Na região do Isan, como talvez em poucos lugares na Tailândia, pressente-se um universo intensamente local, onde a indústria turística não se converteu ainda na medida principal de todas as coisas.

Foi em busca desse caminho menos percorrido que planeei a minha vinda ao nordeste tailandês. Valeu-me de encorajamento a grande sorte de me apresentarem a J., uma jovem tailandesa, amiga de uma amiga, a residir em Surin. Ela e a sua família acolheram-me sem reservas. Receberam-me magnificamente no seu lar, deram-me a conhecer a deliciosa comida local, os pontos de interesse da região, as rotinas e hábitos de cada lugar, e sobretudo - o que mais me tocou - convidaram-me a tomar parte do seu quotidiano familiar, partilhando comigo os seus dias. Gentilezas várias, que não esquecerei, e que me ajudaram a espreitar para lá do véu sob o qual um turista inevitavelmente experiencia uma terra.

O passeio de quatro dias começou neste templo, com o primeiro de inúmeros degraus alinhados em direcção ao Buda. Seguindo a tradição, entretive-me a fazer soar cada um dos sinos a caminho do topo, e depois também ao descer. No cimo, esperava-me como recompensa o olhar aprovador de dois Budas.




Noutro templo encontrei dezenas de caras sorridentes e olhos semi-cerrados, quem sabe se em meditação colectiva sobre a natuteza da iluminação. E logo em seguida encontrei a sua antítese, sob a forma de peixes vorazes e muito pouco inclinados à serenidade.



Noutro local, e no fim de mais umas escadas, mais um Buda.


Uma das visitas mais bonitas do meu curto périplo pelo Isan foi a que fiz às ruínas Khmers de Phanom Rung, sugestivamente situadas no topo de um vulcão extinto e envoltas em lindas vistas sobre os povoados mais abaixo.




O momento de glória de Surin tem lugar anualmente, num fim-de-semana em Novembro, durante o famoso festival de elefantes (elephant round-up). Centena destes gentis paquidermes são trazidos para a cidade pelos mahouts (treinadores), exibindo perante o público as suas proezas em jogos e espectáculos vários.

Fora desse período, e seguindo uma tradição com centenas de anos, é na aldeia Ban Tha Klang, a cerca de 60 km da cidade, que continuam a albergar-se os elefantes da região, com os respectivos mahouts e suas famílias.

Na aldeia é possível visitar o Elephant Study Center, observar os elefantes nas suas rotinas diárias e assistir a espectáculos em  que os mesmos realizam proezas como jogar futebol, pintar quadros ou "massajar" as costas de turistas voluntários. Durante o espectáculo são vendidos pedaços de bambu para dar de alimento às estrelas do show, alimento esse que trombas ávidas recolhem sem demora, no intervalo de cada número.

Visitei o local numa tarde quente, em busca de informação sobre o Surin Project, sobre o qual tinha lido na Internet. Desenvolvido pela Elephant Nature Foundation em colaboração com a Surin Provincial Administration Organization, este projecto procura fomentar em Ban Tha Klang melhores condições de vida para os elefantes e para os mahouts, evitando que por falta de recursos os animais fiquem acorrentados dias inteiros, sejam forçados a participar em mendicidade nas grandes cidades ou espectáculos de circo ou utilizados para as turísticas elephant rides.



Uma visita a uma cidade jamais fica completa sem um giro pelo respectivo mercado nocturno. No norte da Tailândia, os insectos são uma iguaria muito apreciada, e como tal não poderia faltar uma banquinha bem recheada deles.


Por fim, na aldeia Ban Tha Sawang, ouvi falar sobre o laborioso processo de trabalhar a seda.



Em breve chegou a hora das despedidas. Deixei Surin com um bilhete de comboio no bolso e a alma cheia. Quem sabe... talvez o futuro me reserve um reencontro com a J. e a sua acolhedora família. Talvez tenha, um dia, a oportunidade de retribuir as suas gentilezas, servindo eu de anfitriã em Portugal. Até lá, ficam-me as boas memórias e a gratidão.