quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma bicicleta em Dali - Parte 2

Dali deixa-se gostar. Seja a sua reduzida dimensão, o seu Inverno ameno e ensolarado ou o ritmo indolente do seu quotidiano, há algo por aqui que convida a ficar, a ver passar o tempo enquanto se passeia ao acaso ou se passa uma tarde de leitura num dos cafés que por cá foram abrindo ao gosto ocidental. 

É uma cidade turística? É, sobretudo desde que, de há alguns anos a esta parte, caiu no goto dos turistas chineses. A este propósito, é elucidativo o facto de, bem no centro da Cidade Velha, se encontrar uma Foreigners Street, cheia daquilo que se supõe poder apelar aos gostos - e à carteira - dos visitantes. 

Mas ao contrário da sua vizinha Lijiang, cujo coração há muito foi substituído por uma estética de plástico bem ao estilo de uma qualquer Disneylândia, em Dali ainda se sente o sangue local a correr nas veias, ainda se vê a vida de todos os dias misturada com a corrente de turistas que alimenta lojas e estabelecimentos de restauração. E aqui, em Dali, facilmente uma pessoa escapa para o azul do lago Er Hai ou para as vistas esplendorosas da montanha Cangshan. Dali existe no enclave entre um e outro e ambos moldam visivelmente a sua dinâmica e a sua psique.

Talvez seja por isso que no Hostel encontro vários residentes de longo prazo que decidiram ficar alguns meses a aprender chinês. Talvez seja por isso que eu própria me deixo desacelerar do ritmo da viagem, adoptando o passo tranquilo de quem já cá estivesse há muito tempo, e incluo mentalmente este pequeno aglomerado urbano entre as minhas duas cidades favoritas das que visitei na China - sendo a outra Chengdu.

Uma das formas de levantar o véu que porventura oculta ao estrangeiro o âmago do dia-a-dia local é visitar um dos mercados da região. Por aqui há vários, a diferentes distâncias e com diferentes dimensões. Decidi-me pela preguiça e visitei o mais próximo, o mercado local, que descobri um pouco ao acaso, quando passeava pela Cidade Velha de nariz no ar.

As ruas vizinhas vão anunciando a sua proximidade com grades de galinhas e cestas de fruta amontoadas no passeio. Mas é assim que cruza a esquina e penetra no recinto propriamente dito que uma pessoa é aturdida por um emaranhado de cheiros e sons que faz estacar.

Aqui vende-se de tudo. Fruta, legumes, animais vivos e mortos, chás, especiarias, frutos secos, comes e bebes vários, roupa e até alguns artigos domésticos. Fujo das ruas dedicadas aos animais vivos, tantas vezes atados sem qualquer cuidado, amontoados em grades ou bacias de água rasa, expostos e manejados com um utilitarismo que se converte facilmente em indiferença. 

A minha sensibilidade neste ponto é facilmente ferida, mesmo quando tento suspender o julgamento para poder conhecer. É, pois, muito rapidamente que avanço para os demais corredores do mercado.

Aí, tenho amplo motivo para me entreter. Maravilho-me com as formas e textura desconhecidas, encolho-me perante os cheiros invasivos, observo, curiosa, e invado discretamente a privacidade do momento com a minha câmara. Por vezes recebo olhares inquisitivos e então, acanhada, guardo a câmara e passo adiante.

Enquanto observadora, sou inevitavelmente um corpo estranho a este tecido coeso e é justamente a minha sede de o conhecer e registar que reforça a minha natureza de corpo estranho. Esse é, desgraçadamente, o destino do visitante, e eu, como os demais, não escapo à regra.






Uma bicicleta em Dali - Parte I

Junto ao lago
Tempo. Deixar correr as horas em silêncio, sob um sol que cega e aconchega em partes iguais. Só o corpo, com o seu esforço de músculos empenhados, dá a medida do tempo que passa, enquanto voamos felizes nas asas de uma bicicleta. 

À esquerda, campos verdejantes, castanhos onde a terra ainda não foi lavrada, polvilhados por figurinhas humanas que espalham sementes, revolvem a terra e carregam às costas o produto do seu trabalho, em cestos de verga compridos. À direita, o lago Er Hai, ora declarado, ora escondido por trás de árvores, mas a cada passo suave e brilhante como um espelho. Por vezes avista-se um barquinho à pesca. A dado passo, surge no meio do verde um pintor de cavalete montado, abrigado do sol por um chapéu de palha cónico. E em pano de fundo para tudo isso, montanhas sobrepostas reflectem no seu enorme corpo o azul do céu e a vaga neblina da manhã.

O majestoso Er Hai
Pedalando, uma pessoa vai entrando e saindo de pequenas aldeias à beira lago, onde incessantes construções denunciam a marcha do tempo. Algumas pouco mais são que lugarejos, amontoados de três ou quatro casas rodeados de terra, outras estendem-se para lá do que a vista alcança.

Numa delas, descansa uma embarcação puxada para terra, servindo de poleiro a pássaros. São os mesmos pássaros que nas aldeias da região os habitantes treinam para a pesca a duas mãos e um bico. Não tive ainda a possibilidade de assistir a esse espetáculo invulgar de cooperação entre homem e pássaro, mas no Hostel onde estou alojada um grande placard na zona comum anuncia, entre outros, um tour dedicado ao fenómeno.

Montanha até perder de vista
Por mim, gosto de organizar os meus próprios passeios. Hoje levantei-me cedo e depois de uma rápida passagem pelo guichet onde se vendem os bilhetes de comboio, entrei na Cidade Velha pelo portão sul, em busca de uma bicicleta para alugar. 

Dali é actualmente uma cidade dividida: a Cidade Velha, que se estende em infinitos cruzamentos de ruelas pejadadas de lojas e restaurantes e alinhadas entre quatro portões designados pelos pontos cardeais; e Nova Dali, a meia hora de distância, cheia de avenidas e prédios, e que a maioria dos turistas apenas visita na hora de ir para a estação de comboios ou autocarros.

Na Cidade Velha, fazendo caminho por entre uma aprazível mistura de turistas e locais, rapidamente encontro uma bicicleta por 15 yuan ao dia, que é qualquer coisa como 2 euros - uma autêntica pechinca, portanto, mas perfeitamente em linha com os preços que se praticam por aqui.

Um negócio abundante, em Dali
Parto um pouco sem destino, ou antes, com o vago propósito de, permitindo as pernas, chegar à cidade de Xizhou, famosa pela sua arquitectura Bai e pelo singular método de pesca de que acima falei. 

A meio caminho acabo por encontrar caras conhecidas. Um casal holandês alojado no mesmo Hostel que eu decidiu fazer hoje o mesmo percurso. Pedalamos juntos à beira lago e após três horas e meia desde a saída de Dali, damo-nos por vencidos: parece impossível encontrar Xizhou. Disseram-nos primeiro que tínhamos ido demasiado longe, depois, que tínhamos voltado demasiado para trás, mas fossemos por onde fossemos, o alvo parecia mais esquivo que nunca.

Regressámos a Dali, pois, e eu, que não tenho o hábito holandês de me deslocar regularmente em duas rodas, fazia da força de vontade combustível para as pernas, que reclamavam do esforço. Chegámos pelas quatro e meia, seis horas e picos depois da minha partida, e foi já de bicicleta na mão, vagarosamente, que subi a rua em direcção à loja onde deveria entregar a minha companheira de jornada.

Lições Zen em Kunming

Kunming é a capital da província do Yunnan e uma cidade de que conheço muito pouco, mas aposto convosco que conheço um local que pouquíssimos turistas conhecerão: o Provincial Red Cross Hospital.

A única fotografia que tenho da cidade
Pois é, na minha passagem por Kunming, que deveria ter sido de dois dias e foi de uma semana, o indesejável aconteceu: fiquei doente ao ponto de ter de visitar um dos hospitais da zona. Andava a embalar uma constipação há uns dias e depois da viagem a Jiuzhaigou, que vos contei no post anterior, a coisa escalou para um febrão, tonturas e uma fantástica cambada de dores.

Grande azar, dirão vocês, mas eu digo que até foi sorte, porque se tivesse adoecido uns dias depois, noutra cidade mais pequena, teria sido pior. 

No Hostel não pareceram particularmente condoídos: era o dia do meu check-out e regras são regras.

- Mas... - ainda balbuciei.

Nem mas nem meio mas. Já havia uma reserva para a minha cama e eu tinha de sair.

Sentia-me tão mal que por momentos pensei largar num pranto. Depois voltei para a cama e aí contemplei a hipótese de me deixar ficar até chamarem a polícia. Acabei por me levantar duas horas depois, mesmo a tempo de às três pancadas enfiar tudo na mochila, mas não sei como me arranjei que sobravam coisas. E a hora do check-out, que estava iminente...

Estava nisto quando bateram à porta. Afinal a outra reserva tinha sido cancelada e eu podia ficar. Entre esganar o mensageiro, saltar de alegria e voltar simplesmente para a cama, acabei por decidir deixar tudo ali e ir para o hospital.

Por esta altura, os sintomas estavam a baralhar-me com a sua intensidade e eu já temia ter sido picada durante o sono por algum bicharoco peçonhento que me tivesse passado qualquer coisa verdadeiramente desagradável.

Na recepção, mais uma vez, um gelo ártico. Lamentavam muito mas não, não me podiam levar a um hospital, nem tão pouco à porta do táxi, porque o pessoal que estava tinha de ficar ao serviço. Já nem discuti. Com a ajuda de outros dois turistas que por ali andavam, lá se conseguiu identificar, pelo menos, a que hospital eu devia ir, onde houvesse a remota hipótese de falarem inglês.

De nome e morada na mão, em chinês claro está, meti-me no taxi e fui. No hospital, universitário por sinal, inglês pouco falavam, mas a omissão foi compensada pela qualidade das instalações e dos cuidados. Da minha passagem por ali posso apenas dizer o melhor. Acompanharam-me do início a fim, sempre com a maior das atenções, traduziram tudo o que foi necessário nos seus super-telemóveis e até lançaram um condoído e genuíno "óóó" quando o termómetro assinalou 39,8 graus centígrados - solidariedade que uma pessoa sempre aprecia nestas situações.

Pois bem, feitas as necessárias consultas e análises, sempre com os super-telemóveis por perto, ficou decidido: era uma infecção respiratória e eu tinha era de ir para casa descansar, fazer medicação e voltar ao fim de três dias se ainda não tivesse melhorado.

Os dias seguintes passei-os numa espécie de torpor estuporado, entre o quarto e a sala de refeições do Hostel. À satisfação de me ter desenvencilhado sozinha veio juntar-se a sensação aguda de uma profunda vulnerabilidade - a que todo o ser humano partilha, suponho - e também, pela primeira vez desde a partida, a realização muito concreta da minha condição de viajante sem co-piloto.

A doença, sobretudo vivida assim, num lugar estranho e sem mimo, construiu ao meu redor um casulo que me removeu da vida que corria à volta, puxando-me para uma torrente confusa de emoções e pensamentos sobre os porquês - coisa em que uma pessoa nem saudável se deve pôr a pensar.

A minha querida mochila, ainda que silenciosamente solidária, pouco mais podia fazer que esperar a passagem deste rebuliço interior. Certo e sabido, ele passou. Não foi logo, assim como não foi logo que o meu corpo voltou aos cem por cento do seu vigor. Mas um dia, como sempre acontece, a vida e o sol voltaram a entrar dentro de mim com o mesmo brilho e eu declarei-me curada.

A doença custou-me muito tempo e energia e obrigou-me a alterar vários dos planos que tinha para as duas últimas semanas de China continental. Tive de abandonar os meus propósitos de percorrer a Garganta do Tigre que Salta, bem como de visitar a província de Guangxi, qual dos dois a maior facada no meu coração viajante.

Mas aos poucos resignei-me. Aceitei. Tornei-me mais grata pelo que estava, ainda assim, ao meu alcance e apercebi-me da importância do alerta que estava a ter sobre o excesso de planos e a impossibilidade de eliminar o imprevisto. Recordo, em particular, o que me disse um outro viajante que estava no mesmo Hostel e junto do qual eu carpia as minhas mágoas pelo que tinha deixado de fazer:

- Pois eu nunca faço planos, por isso nunca me decepciono.

A perfeita lição Zen.