quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Mergulho em Macau - parte I

Com um agradecimento à I., guia fantástica, anfitriã inexcedível e minha amiga do coração

Saio para a rua com emoção desmesurada. À minha volta ribombam as luzes dos grandes casinos e os edifícios erguem-se megalómanos, numa profusão de dourados e de promessas de uma outra vida onde o dinheiro está à distância de uma carta voltada ou do girar de uma roleta.

Mas se no meio destas ruas muralhadas de fortuna me bate mais forte o coração ou me assoma aos olhos, discreta, alguma lágrima, não é pela superfície de nada disto. A razão está escondida algures nas paredes transformadas de um edifício, o Hotel Lisboa, onde há muitos anos atrás uma versão mais diminuta de mim passou horas felizes a jogar em arcades e carrinhos de choque. Uma feira popular dentro de um prédio, é o que recorda o meu imaginário infantil, hoje como ontem com a mesma surpresa maravilhada.

Nos últimos anos o casino acoplado ao hotel cresceu e engoliu a velha sala de jogos electrónicos, que passou a uma simples memória no sucessivo construir e reconstruir da cidade. Foi dessa memória que vim hoje à procura, ansiosa por colocar sobre a mesa uma das inúmeras peças do meu puzzle pessoal.

Desses tempos, não me lembro de muito. Tinha quatro anos, e depois cinco, durante os meses em que vivi em Macau com o meu pai, na altura em que o território se encontrava ainda sob administração portuguesa. Por isso, talvez seja surpreendente que me importe tanto com o reconstituir desse passado ténue, mas importo-me.

E não, não só pela comum nostalgia de recordar a infância, mas disso só me dou conta ao fim dos primeiros dois dias. Em muitas coisas estou a conhecer Macau pela primeira vez, é verdade, mas para além disso, e para além daquilo que possa ainda restar na minha mente da primeira vez que aqui estive, há outra coisa mais antiga e, talvez possa dizê-lo, muito mais significativa. Quando testemunho a influência portuguesa na arquitectura da cidade, na sua comida, na língua escrita, nos seus habitantes e até turistas, quando penetro, pelas mãos da minha grande amiga e anfitriã I., nas rotinas e rituais da comunidade lusa que por aqui ainda se encontra, observando como se reúne em torno de hábitos, gostos e celebrações partilhadas, nada disso me sabe a uma primeira vez. Nesses momentos, é como se eu fosse, mais do que eu, o ponto presente na linha de uma família que ao longo da sua história correu continentes distantes e neles teve de construir para si um lar. Paticipando no presente, é também numa parcela desse passado que participo - o dos meus pais, avós, bisavós, trisavós e assim por diante.

Caminho pela cidade mergulhada nesta noção muito clara de pertença e num qualquer outro sentimento mais difuso e inexprimível. Será a sensação do círculo que se fecha? Do círculo que através de mim tem a possibilidade de se perpetuar? Não sei dizer.

O que se herdou de Portugal espreita por toda a parte. No Largo do Lilau, completo com banquinhos, fonte e quiosque, no Largo do Senado, com a sua Santa Casa da Misericórdia e a sua Pharmácia Popular, nas incontáveis igrejas, no teatro D. Pedro V, nos canhões da Fortaleza do Monte, no branco e amarelo do farol da Guia, nas ondas hipnóticas da calçada branca e preta, nos halls renovados mas ainda sugestivos do Clube Militar, nos nomes de tantas escolas, ruas e becos, nas placas e menus dos restaurantes, desde o Ou Mun à Caravela, ao Afonso III e à Vencedora, nas estátuas como a de Jorge Álvares e a de Camões, nas histórias que recorda o Museu de Macau, nos pratos de arroz de bacalhau e na centena de coisas que aqui não enunciei.

Em tudo isto está Portugal, sim, mas a cara bem distinta da Ásia nunca anda longe de assomar novamente à superfície. Vira-se a esquina e da igreja passou-se ao templo, do arroz de bacalhau ao chow mein e da arquitectura clássica ao mercado agitado, crescendo de forma orgânica com cada curva da rua.

Como os dias me vão mostrando, na barriga do grande caldeirão dos séculos que correm foram-se fundindo em Macau a história portuguesa, a história chinesa e outras histórias que em maior ou menor medida aqui deixaram a sua marca, cessando de ser unidades isoladas e estanques para darem lugar a algo de único. Nesta terra de dimensões reduzidas cabem as influências mais díspares, mas ao contrário do que se poderia supor, nenhuma delas verdadeiramente se contradiz. O todo harmónico resulta, justamente, da confluência das várias diferenças e, ao contrário do que sucede noutros lugares, cada elemento não sobressai como num aglomerado, antes se articula e enquadra como numa identidade. É nisso, e por isso, que Macau se torna Macau.

Para mim, porém, é difícil o olhar descomprometido, objectivo. É difícil não ir à procura de uma centelha de reconhecimento ou de conexão. A visita a estas paragens ficou irremediavelmente moldada ao feitio das minhas origens, memórias e expectativas. Talvez por isso, deixarei que sejam as imagens, e não as palavras, a contarem-vos o resto desta história.

8 comentários:

  1. Amei! por tantas e diferentes razões. Mas, sobretudo, porque mesmo quando não o quero reconhecer, ou a realidade quotidiana o torna mais díficil, percebo tão profundamente essa estranha sensação de pertença e que me inunda tantas e tantas vezes desde o primeiro regresso.

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    1. Muito obrigada, mm! De facto, aquilo que está muito próximo é por vezes mais difícil de trazer ao consciente, mas nem por isso deixa de estar lá, bem vivo! Beijinhos

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  2. Acabei de ler e só posso exprimir-te a minha emoção por este texto. Ponto presente de todos os meus presentes, criaste para mim – para nós – este futuro, orientado pelo teu fio condutor, iluminado pelo olhar de quem nos amou e habitado pelas cumplicidades de sempre. A seguir, Moçambique? :) Um beijo grande.

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    1. Sim, a seguir Moçambique. Fica combinado! Obrigada pelas palavras e pelo passado, presente e futuro que tenho oportunidade de ter. :) Bjs

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  3. a Tam, claro, disse muito bem tudo o que eu me preparava atabalhoadamente para balbuciar.
    faço minhas as palavras dela!
    só meu, vai um beijo

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    1. Cada palavra - e beijinho - é importante e perfeito à sua maneira! Obrigada!

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  4. Que inveja, Adriana!! Só dá vontade de dar corda aos sapatos e ir ter contigo. Um destes dias meto-me a caminho, crio um blog (... MilMilhasNasPalmilhas, por exemplo...) e mato de vez o manjerico sedentário que há dentro de mim. Porque viajar, já dizia o Torga, é "deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto...pelo mundo além". Entretanto, viajo por procuração, lendo (com muito gosto) as tuas crónicas. Termino, por ora, com os nossos votos natalícios. Como não sabemos onde estás, seguem em mandarim (Kung His Hsin Nien bing Shu Shen Tan), em tailandês (Sawasdee Pee Mai) e em vietnamita (Chuc Mung Giang Sinh). José Pestana e Vera

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    1. Muito obrigada pela visita e por tão bonitas palavras! Fico muito feliz por saber que conto com a vossa companhia por aqui e, pela minha parte, fico em pulgas para acompanhar a viagem e respectivo blogue aqui anunciados! Quanto ao meu Natal, está a ser passado no Laos, da melhor maneira possível para uma viajante. Só tenho motivos para celebrar! Desejo também um Natal muito feliz! Um beijinho

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